Opinião

Os média são quem mais ordena

Os média são quem mais ordena

A frase é terrível, mas muito franca. Pertence a Aníbal Cavaco Silva e está inscrita no livro que apresentou ontem, no Centro Cultural de Belém, intitulado "Quinta-feira e outros dias": "teria sido um presidente da República diferente se não tivesse chegado à mais alta magistratura do Estado saturado do palco mediático". Porque até mesmo aqueles que não estão disponíveis para seguir as lógicas dos média, como é o caso, sabem que ali está um campo estruturante da política que eles ambicionam fazer.

Antes das considerações críticas ao excesso de rigidez que sempre caracterizou o ex-presidente da República, há que contextualizar o que escreve. Cavaco Silva cresceu politicamente num tempo pouco exigente quanto à produção de estratégias direcionadas para os média. É verdade que, em 1988, o jornal "O Independente", então dirigido por Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, viria a alvoroçar o oásis cavaquista e, no ano seguinte, a TSF acentuaria a agitação em S. Bento. Todavia, foram os anos 90 que mais sobressaltaram o então primeiro-ministro. A atribuição das licenças para a abertura dos canais privados, há precisamente 25 anos, foi o ponto a partir do qual se iniciaria a queda do seu Governo. No início dos anos 90, desenha-se um jornalismo político muito agitador do poder instituído. Cavaco não tem sossego. Em Belém, Mário Soares vai aproveitando as linhas editoriais de contrapoder. O programa "Praça pública", que a SIC estreou logo nos primeiros meses de emissão, abre-lhe um enorme tempo de antena para exibir à escala nacional que o país de progresso afinal escondia gravíssimos guetos. A presidência aberta na zona metropolitana de Lisboa teve um enorme impacto. Porque o presidente da República resolveu mostrar impensáveis disfuncionalidades e porque, acima de tudo, esse périplo pela capital mais cinzenta teve uma fortíssima cobertura mediática. E isso fez toda a diferença.

Nas eleições legislativas seguintes, Cavaco Silva saiu pela porta dos fundos para, anos mais tarde, entrar a pé pelo portão principal do Palácio de Belém. Mas, com ele, pouco saber levou no que diz respeito às transformações por que o jornalismo passou nesses anos. Foi também por isso que a sua magistratura nunca teve grande brilho. Nem carisma. Porque isso constrói-se, sobretudo, nos palcos mediáticos.

Hoje, Belém é habitado por um inquilino de perfil oposto. Marcelo Rebelo de Sousa nasceu nas redações, fez-se político entre jantares e telefonemas conspirativos e tornou-se imbatível pela popularidade que cultivou nos estúdios de televisão. O atual presidente da República conhece bem os campos político e mediático e sabe que, entre eles, há uma intrínseca dualidade estrutural que ninguém consegue desfazer. Por isso, Marcelo procura equilibrar-se em ambos os lados. Por vezes, de forma excessiva. Claro que grande parte daquilo que importa se mantém numa bem calculada zona de bastidores. Nem todas as conversas políticas são tornadas públicas e nem todos os contactos com os jornalistas são assumidos em nome próprio. Há uma reserva que se procura manter em segredo. Todavia, convém perceber que os ambientes político e mediático são hoje deveras líquidos. E, por isso, muito imprevisíveis.

Nem mesmo um presidente tão previdente como Marcelo consegue engendrar táticas que o poupem a situações mais delicadas. Percebeu-se bem isso no caso das SMS trocadas entre Mário Centeno e António Domingues. Marcelo Rebelo de Sousa não terá calculado bem as suas movimentações no campo político, nem terá inicialmente gerido bem as declarações aos jornalistas. Por isso, nos últimos dias, tem sido mais reservado no que diz sobre o assunto. Mário Centeno terá sido mais incauto nas suas negociações políticas e ainda menos hábil em gerir a palavra pública. E isso tem tido enormes repercussões. O ministro das Finanças bem pode anunciar que o défice não ficará acima de 2,1%, mas, nos dias que correm, ninguém é capaz de reter a boa nova. Porque isso não é notícia. O que importa agora são as mensagens trocadas com o ex-presidente da Caixa Geral Depósitos. O resto pode esperar...

* PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA U. MINHO