Opinião

Os média também centralizam

Os média também centralizam

Por estes dias, a candidatura de Portugal para instalar em Lisboa a Agência Europeia do Medicamento voltou a reacender críticas quanto às profundas assimetrias do nosso país. Porto, Braga e Coimbra também querem ser hipóteses a considerar. No entanto, a espiral concêntrica não perdoa, uma espécie de círculo vicioso que suga para a capital os atributos, os recursos e a opinião que tudo acaba por decidir. É também aí que estão as elites que se fazem ouvir. O campo mediático poderia ajudar a reverter essa hegemonia, mas não são muitos os projetos editoriais que se preocupam com o chamado resto do país. Que importaria ser mais considerado.

Olhando para os média noticiosos de âmbito nacional, evidencia-se uma agenda de acontecimentos e um conjunto de fontes de informação enraizados em Lisboa. Os jornalistas encontram na capital grande parte dos factos que mediatizam e das pessoas a quem oferecem a possibilidade de se pronunciarem sobre o que acontece. É assim desde sempre, mas a recente crise financeira que se abateu sobre as redações encarregou-se de exacerbar essa tendência. Com exceção do "Jornal de Notícias", com sede no Porto, e da RTP, que emite, em alguma franjas horárias, a partir do Centro de Produção do Norte, os órgãos de comunicação nacionais colocam as suas redações em Lisboa. Como escrutinar a nossa tendência para uma governação centralista, quando os jornalistas são comandados por um modo de ver o país e o Mundo a partir da capital? Como promover algum equilíbrio no espaço público, se os média constroem em permanência ágoras mediáticas rarefeitas? Como dar visibilidade a outras elites, se aquelas que se valorizam continuam a ser as que pululam à volta do poder instituído? Somos um país desequilibrado, é um facto. Porque o poder político central nunca quis outro desenho do mapa administrativo. Porque os autarcas nunca tiveram força para se impor. E também porque os média nunca rasgaram este cerco hegemónico daqueles que comandam a nação. Nos últimos anos, recuámos ainda mais.

As organizações jornalísticas apresentam uma determinada rede noticiosa para responder eficazmente àquilo que pretendem noticiar. Num mundo ideal, teríamos redações descentralizadas, diversas editorias dentro dos próprios meios de comunicação social, vários jornalistas especializados para acompanhar certos campos sociais ou instituições e diferentes delegações ou correspondentes que se fixam em certas geografias. É a distribuição dessa rede que define os papéis e os lugares dos acontecimentos e atores que se tornam notícia. É, aliás, essa rede que explica, em parte, os critérios de noticiabilidade que determinado meio de comunicação social privilegia, as fontes que mais valoriza e o posicionamento editorial que adota. Ora, confrontados por uma grave crise financeira que se abateu sobre o país nos últimos anos, os média funcionam maioritariamente a partir da sua redação central, reduziram editorias, transformaram jornalistas especializados em generalistas, fecharam delegações e despediram correspondentes. Resultado: o chamado resto do país é, sobretudo, notícia quando o poder central aí se desloca ou devido a acontecimentos disruptivos que avolumam as disfuncionalidades das regiões já de si tão menosprezadas.

Por estes dias, o Governo reacendeu a discussão das assimetrias com a opção de candidatar Lisboa para aí instalar a Agência Europeia do Medicamento. Alguns autarcas atacaram tal opção centralista de um Governo que, por estes dias, tenta dar alguns sinais de descentralização governativa. Ontem, os média anunciavam que as câmaras vão receber mais 1100 milhões de euros devido à transferência de novas competências. É um sinal. Que, no entanto, não resolve as disparidades entre as diferentes regiões. Precisamos de ter um poder de influência mais equilibrado no pequeno país que somos e isso constrói-se, muito predominantemente, nos meios de comunicação social. O Portugal que pensa não está, nem pode estar, apenas em Lisboa, nem tão pouco circunscrito a uma confraria que se perpetua no espaço mediático com a mesma longevidade com que se eterniza nas esferas do poder. Sem criarmos elites descentralizadas, seremos sempre um país comandado a partir da capital.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO