Opinião

Os segredos dos políticos

Os segredos dos políticos

Terá um político direito à proteção da sua vida privada? Poderá alguém publicitar mexericos ou assuntos de alcova, obtidos através de meios ilícitos? Em teoria, as respostas a estas questões poderão parecer simples, mas na prática há alguns matizes nas fronteiras da vida pública e do domínio privado e é exatamente nestes interstícios que crescem os predadores dos segredos de figuras com notoriedade.

Nos últimos tempos, o mercado livreiro tem colocado nos seus escaparates publicações que rasgam os limites daquilo que é tolerável contar. Como traço comum, os autores dos novéis títulos fazem uso de uma proximidade do poder que, num passado recente, os tornaram privilegiados ouvidores de inconfidências que agora ganham uma inesperada forma de livro, que suscita um colossal interesse do público. É pena, porque essas narrativas, podendo espelhar o que à época foi dito, transportavam consigo um contrato implícito: o da confidencialidade. Que as obras rasgam de forma vil.

Esta semana, em França, publicou-se mais um livro assim: "A causa do povo. A história proibida da presidência de Sarkozy". O seu autor, Patrick Buisson, foi um importante conselheiro do ex-presidente francês e foi nessa condição que gravou inúmeras conversas, sem ninguém dar conta da ousadia. O argumento para justificar a empreitada é o da prova da verdade dos relatos, mas tal não neutraliza o gigantesco abuso de confiança que isso implicou. O volume, de 464 páginas, sublinha a vontade de Sarkozy em fazer rentabilizar junto dos franceses a sua vida amorosa com Carla Bruni; denuncia os epítetos usados para se referir a políticos conceituados (por exemplo, a Jacques Chirac); revela a sua voracidade pela presença nos média, nomeadamente nos plateaux televisivos...

Ao longo de toda a obra, Buisson refere um permanente processo de privatização de poder que Sarkozy fez perpetrar no Eliseu, sem cuidar daquilo que, em campanha, prometeu fazer: desenvolver uma ação política voltada para o povo, a base social a quem garantiu outras condições de vida. Que ficaram por cumprir. Trata-se aqui de um ponto de vista legítimo, se os argumentos apresentados saíssem da vida pública daquele que foi o 23.º presidente da França, entre 2007 e 2012. E que agora quer regressar. Por isso, disputará, a 20 e 27 de novembro, umas acesas eleições primárias no seu partido, os Republicanos, para as quais também concorrem mais seis candidatos, entre eles um bem posicionado Alain Juppé, um perigoso François Fillon e um promissor Bruno Le Maire. Não será, pois, inocente o calendário de aparição desta obra que certamente vai interferir no debate interno do partido de Direita. Nicolas Sarkozy mostrou-se já muito incomodado com este livro e isso serve, na perfeição, os intentos de quem o escreveu e está zangado com o ex-presidente francês. O ajuste de contas é perfeito.

Por cá, também temos livros assim. Escritos a partir de métodos censuráveis. O mais polémico tem sido "Eu e os políticos", de José António Saraiva. Um livro sem interesse público que deveria suscitar desprezo, por revelar inconfidências feitas em conversas íntimas, algumas por pessoas que já não estão entre nós. Eis aqui um exemplo daquilo que temos o dever de não ler, porque põe a nu a vida privada de personalidades públicas, sem que isso tenha qualquer repercussão no trabalho que fazem/fizeram.

Embora muito diferentes, os livros de Buisson e Saraiva encontram-se no desrespeito pelos interlocutores que neles confiaram. Revelar conversas privadas em público é reprovável, especialmente quando essa revelação é extemporânea no tempo. Se os dados agora editados em livro fossem importantes para a vida nacional do respetivo país, por que razão os autores de tais inconfidências esperaram tanto tempo para os divulgarem? Se as pessoas que agora denunciam são portadoras de vícios privados tão censuráveis, por que razão à época de ouvirem tais conversas os seus autores partilhavam com elas uma amizade e, em certos casos, uma relação de trabalho pautada por uma certa cumplicidade? É nas respostas a estas perguntas que encontramos razões suficientes para nos desinteressarmos pela leitura de tais títulos.

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO