Opinião

Para que serve um congresso?

Para que serve um congresso?

Não é preciso escutar o que aí se discute. Basta olhar para a configuração do espaço. Uma sala grande com um palco onde se ergue um atrativo cenário pensado em função das televisões. Porque o que interessa ali não é o debate. É a cobertura mediática. Que se quer intensa e sem contraditório. Será assim a partir de hoje e até domingo, no XXXVI Congresso do PSD, com um espetáculo montado esta sexta-feira à volta do slogan "Compromisso reformista". Foi assim nos últimos congressos dos outros partidos.

Pedro Passos Coelho chega ao conclave laranja de Espinho reeleito presidente do PSD, o que converte esta reunião numa aclamação do líder. Longe vão os tempos em que, nos congressos, se mediam apoios e se contavam milimetricamente os votos. Com a instauração de eleições diretas, PS e PSD retiraram daí toda a pressão e, consequentemente, qualquer interesse jornalístico que vá além de um pontual direto ou de uma peça noticiosa. O CDS insiste em fazer eleger o seu líder neste tipo de reuniões, mas aquele que se apresenta a sufrágio tem, nos últimos anos, disputado sozinho os votos dos militantes. Portanto, nada de excitante para reportar. No entanto, os média lá acedem a fazer uma grande cobertura mediática destes pseudoeventos. E os congressos só têm este formato porque os jornalistas acompanham em permanência os congressistas, desdobrados em várias equipas. Se assim não fosse, tudo se arrumaria num dia.

Os políticos e os jornalistas sempre mantiveram relações muito próximas, havendo uma certa conivência que a crescente mediatização da política tem acentuado. Falamos de atores que existem com uma forte dependência uns dos outros. Sem o agendamento mediático de que são alvo, os políticos não criariam eventos que lhes conferem poder e notoriedade. Sem a cumplicidade dos políticos, os jornalistas perderiam fontes rentáveis do ponto de vista da informação que estrutura a atualidade noticiosa. Todavia, cada um dos campos tem linhas que definem a sua identidade. Que não devem ser confundidas.

Ao fazer estender um congresso por dois ou três dias, qualquer partido tem a obrigação de discutir ali ideias inovadoras que envolvam efetivamente toda a plateia. Ao mostrar uma sala cheia de militantes, qualquer partido deve colocar em palco interlocutores com novas propostas, fundamentados argumentos e uma eficaz retórica em torno de teses estruturantes de um Portugal mais desenvolvido e de uma democracia mais consolidada. Ora, na prática, o alinhamento de um qualquer congresso pontua-se em dois momentos: o que acontece à hora do almoço e o que se desenrola depois das 20 horas. Porque nessas franjas os partidos podem entrar nos noticiários de maior audiência e ficar ali o tempo que quiserem. No meio destes fusos horários, o palco povoa-se de militantes anónimos que vão desfiando propostas que quase ninguém ouve. Para que a plateia não seja embalada por discursos monocórdicos que vão fazendo passar o tempo, aqui e ali um notável do partido encarrega-se de espevitar os que vão resistindo.

Confrontados com os pontos mortos dos trabalhos, os jornais podem ir adiantando os seus textos, enquanto a rádio e, sobretudo, a televisão vão promovendo uma discussão paralela, entrevistando militantes com mais notoriedade e conversando com comentadores que garantem a sobrevivência das emissões. No terreno, os repórteres lá vão olhando para as margens à procura de outros ângulos noticiosos, confrontando frequentemente quem ali está com posições polémicas de quem ali não foi. E eis como os jornalistas vão mapeando um congresso partidário, conquistando um involuntário protagonismo num evento que paradoxalmente nem conseguem controlar. Porque o líder do partido ali está nos momentos mais fortes a marcar um "frame" noticioso, impossível de inverter. Porque os militantes, mesmo os mais críticos, sabem que não podem rasgar a unanimidade destes conclaves.

Sendo sobretudo espetáculos mediáticos, os congressos deveriam também ser espaços de informação jornalística. Relevante e com interesse para os cidadãos. Conseguirão ser também isso?