Opinião

Passar ao lado do essencial

Passar ao lado do essencial

Não foi uma campanha eleitoral esclarecedora. Não se falou dos problemas do país, nem daquilo que interessa aos cidadãos. Discutiu-se muito a votação de domingo, porque é nisso que os políticos se concentram. O resto importa pouco. Por isso, as máquinas partidárias não investem em novos formatos para fazer política. A caravana que hoje chega ao fim do seu percurso é idêntica àquela que percorreu o país há 20 anos. Acontece que o país mudou. Muito. Os políticos ainda não perceberam isso. Talvez o alto índice de indecisos que as sondagens vem revelando se constitua como um profícuo sinal de alerta.

Sem discutir o essencial. Falou-se de pensões, de prestações sociais não contributivas e de plafonamento, mas não se definiu o futuro da Segurança Social. Falou-se de emigração, mas não se apresentaram soluções para travar o fluxo de saída dos cidadãos. Falou-se do défice, mas ninguém se comprometeu com uma redução drástica da despesa pública. Falou-se da troika e da austeridade, mas ficou por dizer como se promove o crescimento económico do país. Falou-se da venda do Novo Banco e dos lesados do BES, mas evitou-se mostrar qual o envolvimento do Estado com a Banca. No meio de tudo isto, não houve tempo para falar de saúde, nem das dificuldades que os portugueses experimentam no acesso a cuidados médicos. Não se falou de educação, nem da deriva dos programas curriculares em todos os graus de ensino e nas diferentes áreas disciplinares. Não se falou de ciência, nem dos colossais cortes de financiamento feitos nos centros de investigação. Não se falou da baixa natalidade, nem das razões que levam a não querer ter filhos. Não se falou da vida de todos os dias. Porque isso exige outro modo de fazer política.

Líderes sem brilho numa campanha anacrónica. Acompanhando os diferentes líderes partidários, não se sentiu garra, determinação, força. Estão na estrada, teoricamente em defesa de um projeto político, mas, na prática, andam a conquistar votos. Apenas. A defesa de ideias exigiria outro modo de estar e de dizer. Poder-se-á reconhecer que um ou outro tem mais empatia com os cidadãos, mas ninguém faz arruadas à procura de conhecer melhor o povo, ninguém percorre as ruas para conversar genuinamente com as pessoas. Interessa apenas um fugaz contacto com os eleitores e avançar depressa. Para não ouvir muito. Olhando para as ruas por onde os políticos passam, já não se veem as multidões de outrora. Porque todos estão fartos desta encenação partidária.

Dia de reflexão. Amanhã os média não podem editar notícias político-partidários e os partidos não podem fazer campanha. Muitos de nós vamos consultar vários sites noticiosos e redes sociais e ninguém nos impedirá de ler conteúdos acerca da campanha eleitoral. Somos públicos ativos, não mudando miraculosamente comportamentos depois de receber uma mensagem. Quando se perceber isso, ver-se-á na institucionalização do dia de reflexão um disparate.

E se as sondagens estiverem erradas? Hoje haverá um tópico a dominar a noticiabilidade do dia: as sondagens. Elas estiveram presentes, como nunca, ao longo de toda a campanha eleitoral. Todos os dias. Em todo o lado. E condicionaram muito o comentário político e a gestão que as caravanas faziam do seu dia a dia. Não é garantida fiabilidade naquilo que apresentam. No domingo poderá haver surpresas. Ou não. Se o resultado for muito diferente daquilo que foi sendo anunciado, valerá a pena fazer uma reflexão profunda acerca do modo como são feitas. Se aquilo que vem sendo revelado se verificar, levantar-se-á a questão de saber até que ponto isso condicionou o voto dos portugueses. Convinha não deixar este tópico em aberto.

E depois de domingo? Se nenhum partido conquistar a maioria de deputados e de votos, muita coisa pode acontecer. O presidente da República será aqui um elemento-chave, mas os partidos e a sua capacidade para criar pontes também. Curiosamente todos evitaram discutir cenários pós-eleitorais. Não por acaso. Porque todos sabem que os adversários partidários rapidamente podem converter-se em companheiros de coligação.

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO