Opinião

Por outra (cobertura da) campanha eleitoral

Por outra (cobertura da) campanha eleitoral

Retirem os jornalistas da comitiva de uma candidatura política, excluam os elementos da respetiva lista e da jota daquele partido. O que fica?

Candidatos que deambulam pelo país real sem que ninguém manifeste muito interesse em conversar com eles. Os eleitores há muito que se afastaram deste modo de fazer uma campanha eleitoral, mas a parafernália que os média noticiosos e os candidatos montam nesse período esconde essa evidência. Que depois se reflete nos índices de abstenção em dia de eleições.

A fotografia do repórter do "Expresso" Rui Duarte Silva, que por estes dias tem circulado pelo Facebook, deveria suscitar uma profunda reflexão. A imagem retrata um momento de campanha eleitoral em pleno areal da praia onde se vê um pequeno grupo que se fecha em si próprio, formado quase exclusivamente por candidatos, jovens que agitam coloridas bandeiras do partido e jornalistas. À sua volta, está um banhista que fica excluído daquele frenesim. A escassos metros, uma rapariga em biquíni, deitada numa toalha, mostra-se indiferente àquela agitação. Eis a imagem perfeita da campanha eleitoral para as eleições europeias.

Esta semana, um dos cabeça de lista foi desafiado a fazer mais campanha de rua. Para quê? Antes de cada eleição nacional, os candidatos percorrem o país, sem que se encontre nesse esforço qualquer retorno positivo para os eleitores. Todos sorriem muito, dão abraços, atiram cumprimentos e entregam panfletos que pouco dizem sobre o que pretendem fazer... E lá seguem viagem. Não há tempo para falar com as pessoas e estas também não querem conversar com políticos que pouco sabem da vida de todos os dias do cidadão comum. À noite, promove-se um jantar onde haverá discursos, proferidos diante de militantes que estão ali mais para marcar presença do que para conhecer melhor um programa a sufragar.

Cada candidatura é acompanhada por equipas permanentes de repórteres, principalmente de canais televisivos, que lhes garantem tempo de antena, mesmo que nada de relevante tenha acontecido. Aproveita-se o colorido do dia, recuperam-se "bocas" engraçadas e espevitam-se farpas direcionadas para os adversários. Fabricam-se pseudoacontecimentos que não existiriam, se ali não estivessem jornalistas.

Tal como se fazem, estas campanhas eleitorais não têm qualquer interesse para os eleitores. Também o modo como se planeia a cobertura mediática afasta os trabalhos jornalísticos daquilo que é relevante e importa noticiar. Há, pois, que encontrar novos modelos de fazer e cobrir estes períodos.

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO