Opinião

Por uma campanha diferente

Por uma campanha diferente

Faltam dois meses para as eleições autárquicas. Sentimos bem essa proximidade temporal. Há cartazes nas ruas (pouco criativos, é certo), promovem-se repetitivos pseudoacontecimentos (para atrair jornalistas) e fazem-se sucessivos anúncios (muitas vezes inexequíveis). Tudo isso é cansativo para quem está do lado de fora do campo político. Não se inova quando se aposta sempre naqueles que emergem do interior dos caciques partidários.

É difícil uma campanha eleitoral não se vergar aos outdoors. Para mostrar obra feita no caso de continuidade daqueles que se apresentam a sufrágio, para criar alguma notoriedade pública para os menos conhecidos. Em cada imagem, o candidato surge devidamente retocado, sob um fundo por vezes pouco adequado e enquadrado por um slogan frequentemente mal escolhido. Como o domínio da língua portuguesa nem sempre é o desejado por parte de criativos que procuram surpreender, lá temos os habituais erros de pontuação, as trocas dos tempos verbais (quando se percebe o valor diferenciado do presente do indicativo do presente do conjuntivo?), as palavras com dupla semântica a multiplicar confusões... Perspetivadas no seu conjunto, essas imagens obrigam-nos a carregar no nosso olhar uma poluição visual que cansa. Muito. Será que as agências de comunicação poderiam pensar noutros modelos de marketing político?

Convém não perder de vista que a essência de uma campanha se estrutura em torno do discurso dos candidatos. No caso daqueles que, nos anteriores mandatos, ocuparam já a liderança autárquica, as nossas exigências deveriam passar muito para lá dos anúncios que agora fazem. Tendo tomado conta do município que querem reconquistar, esses autarcas têm uma obrigação acrescida: a da prestação pública de contas. Séria, completa, bem documentada. Seria bom que nós, enquanto munícipes, nos interessássemos verdadeiramente por aquilo que foi feito em prol do desenvolvimento dos nossos concelhos e obrigássemos os autarcas a uma exigente accountability. Não importa as festas que se organizaram e os foguetes que se estoiraram (algo dispensável). O que mais nos deveria interpelar é o tipo de herança que esses edis deixam às gerações futuras. No caso daqueles que se submetem pela primeira vez a votos, seria necessário conhecer muito bem as propostas de valor que pretendem empreender a favor de uma causa comum. Um autarca pode, em pouco tempo, desvirtuar um concelho e isso não é apenas obra da sua incompetência. Reflete também o nosso desinteresse em expulsar da gestão pública políticos sem qualidades.

Nos próximos tempos, teremos uma pausa nas ações políticas, embora a atual tragédia dos incêndios continue a constituir-se como mote das mais vis declarações partidárias. Sabemos que as estruturas concelhias não estarão completamente imobilizadas. Para que em setembro a campanha surja em força, há muito para fazer nestas semanas de verão. Que bom seria se esse tempo fosse aproveitado para preparar uma campanha diferente. Que interrompesse a itinerância de palcos de música popular pelas freguesias e exterminasse os jantares costumeiros para o líder propagandear o que ninguém escuta com atenção.

Um projeto autárquico constrói-se a favor das pessoas e é com elas que se deveria projetar o que se ambiciona fazer. A comunicação de um (candidato) para muitos (eleitores) teve o seu tempo. Que deveria estar ultrapassado. Cada um de nós integra-se naquilo que se designa como públicos ativos, ou seja, somos pessoas críticas que, quando interpeladas, poderão constituir-se como uma mais-valia para pensar melhor o futuro da nossa vida coletiva. Ora, para que isso aconteça, seria necessário um conhecimento profundo e diversificado de alguns atores para com eles debater o que realmente interessa. Não falo daquelas discussões nas inacessíveis estruturas concelhias que se enchem de militantes à procura da influência necessária que os ajude a tomar de assalto certos cargos, avessas ao mérito dos estranhos àquelas tribos. Refiro-me a reuniões promovidas em diferentes locais e com gente de variados campos que tenha um interesse genuíno em construir lugares mais habitáveis por todos. Assim, talvez fosse possível criar novas políticas. Que deixassem um legado fecundo às gerações que estão para vir.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO

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