Opinião

Por uma comunicação da saúde

Por uma comunicação da saúde

Nem sempre é fácil um médico comunicar bem com o doente. Não desenvolvendo na sua formação competências comunicativas que o treinem a esse nível, um profissional de saúde é muitas vezes absorvido por um ambiente hostil à comunicação. A pressão de atender muitos pacientes, o cansaço de várias horas de trabalho, a exigência de se concentrar rapidamente em situações graves e, em alguns casos, uma intrínseca altivez retiram capacidade de perceber que há uma variável fundamental para tratar bem um doente: saber comunicar.

Hoje qualquer política de saúde ou qualquer ato médico pensado do ponto de vista teórico prioriza o paciente e, por arrastamento, aquele que o acompanha. Ora, aqui a comunicação é um elemento subsidiário que convém não negligenciar. Constituindo-se como um campo de grande expansão nos últimos 40 anos nos Estados Unidos, a comunicação da saúde não tem tradição na Europa, principalmente em Portugal. Porque custa perceber que a medicina não é uma disciplina técnica que impõe um saber (fazer) desligado daqueles que são alvo de tratamento.

Todavia, hoje sabe-se bem que os conceitos de saúde e de doença implicam uma conceção sistémica, aglutinadora de várias componentes de diferente natureza. E os casos de sucesso são muitas vezes aqueles que sabem articular variáveis de campos distintos. Aliás, já em 1946 a Organização Mundial de Saúde definia a saúde como um estado de bem-estar físico, mental e social completo, e não apenas como a ausência de doença ou de enfermidade. Ora, não é preciso um avançado pensamento teórico para entender que a promoção da saúde e o tratamento da doença implicam uma interação eficaz com os utentes.

Muitos de nós experienciam periodicamente uma relação com um médico numa urgência hospitalar, o sítio onde existe frequentemente a sensação de tudo faltar. Recursos humanos que respondam à premência dos casos, meios que garantam alguma dignidade a quem chega em situações muitas vezes limite e algum tato daqueles que ali trabalham para perceber a enorme fragilidade psicológica de quem chega a precisar de tratamento. A indiferença dos profissionais de saúde à dor será certamente uma defesa para executar bem um trabalho que necessita de distanciamento emocional perante o que veem, mas há que saber equilibrar essa imprescindível frieza com uma ausência de empatia em relação ao doente e aos respetivos acompanhantes. Um médico precisa de cuidar do doente. E isso também comporta saber ampará-lo no seu medo ou ansiedade perante o seu estado clínico. Ora, como todos sabem, isso requer certas competências que muitas vezes os profissionais de saúde não demonstram ter.

Em qualquer Urgência, os tempos de espera são um dos maiores problemas e nem todos os profissionais de saúde sabem lidar adequadamente com as interpelações que lhes são feitas. Há reações verbais dirigidas aos utentes dificilmente reproduzíveis de forma aceitável noutros contextos... Acende-se logo ali uma luz amarela. Já em período de atendimento médico, há cuidados que não devem ser negligenciados, como ouvir com atenção o que um paciente tem para dizer, não dispersar o olhar pelos elementos circundantes e, acima de tudo, ajustar o registo verbal ao seu interlocutor e saber fazer isso com o cuidado de não humilhar um utente que se imagina nada saber de medicina e, se calhar, de muitas outras áreas do saber. Claro que poderá ser redundante considerar-se obrigatório informar o doente sobre os tratamentos a fazer, mas muitas vezes o óbvio fica por dizer... Algo também vital será o médico não desaparecer totalmente do serviço e, se isso tiver que acontecer, seria aconselhável informar o doente sobre quem o irá substituir. Um paciente não pode ficar numa sala onde se acumulam inúmeras camas ou num corredor onde se atropelam várias macas desconhecendo quem é responsável por si...

E se há hoje toda uma classe médica muito preocupada com as suas carreiras, convém que ninguém esqueça que a autoridade de um médico nunca se calcula pela sua altivez, estima-se pela sua capacidade de nos tratar (bem). Do corpo. E da alma. E isso não se faz apenas no âmbito restrito de um ato médico. Faz-se por outros caminhos onde a comunicação abrirá sempre grandes vias.

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO