Opinião

Presidentes em queda?

Há uns anos, Emídio Rangel, diretor-geral da SIC, então líder de audiências, dizia, num documentário que passou no canal franco-alemão Arte, que a televisão tem um poder descomunal, podendo até eleger um presidente da República. O tempo veio comprovar o que, na época, foi interpretado como uma declaração algo desproporcionada. Tendo em conta o que se passa hoje no Brasil e nos Estados Unidos, poder-se-á dizer que os média têm também o poder de destituir aquele que ocupa o mais alto cargo de uma nação? A resposta é sim, se as investigações criminais e os tribunais ajudarem.

A Operação Lava Jato ganhou, por estes dias, um novo fôlego com o envolvimento de Michel Temer e do ex-candidato à presidência, o social-democrata Aécio Neves, em graves suspeitas de corrupção. O jornal "O Globo" noticiou, anteontem, que o presidente brasileiro terá autorizado o pagamento de um suborno para comprar o silêncio de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados que se encontra preso na sequência desta investigação. A denúncia terá sido feita pelo dono da JBS, a maior produtora de carnes, que também incriminou Aécio Neves, que lhe terá pedido dois milhões de reais para pagar despesas no processo Lava Jato em que fora já envolvido. Ontem, todos os média brasileiros davam amplo destaque a este escândalo político que se arrasta no Brasil há mais de três anos. Neste tempo, os jornalistas nunca excluíram este tópico dos seus alinhamentos. Ainda no início desta semana, as revistas "Isto É", "Época" e "Veja" faziam capa com este assunto, colocando no centro da noticiabilidade Lula da Silva. "Não é inocente", titulava a publicação "Isto É" sobre uma fotografia onde se via um cabisbaixo Lula da Silva.

É claro que ninguém pode dissociar a Operação Lava Jato do empenho de quem foi comandando as investigações e os julgamentos, particularmente do juiz Sérgio Moro. Todavia, a vitalidade desta operação é também consequência da forte atenção dos média. Sem esse permanente destaque no espaço público mediático, este enorme esquema de corrupção e branqueamento de dinheiro há muito tinha desertado.

Também nos EUA, os jornalistas seguem com atenção os desvios de Donald Trump que, nos últimos dias, tem somado impensáveis erros. Para além de ter ousado demitir o diretor do FBI, talvez porque acreditasse que os democratas não lhe haviam perdoado a decisão de reabrir a investigação sobre o servidor privado de email de Hillary Clinton apenas 11 dias antes das eleições, sabe-se agora que Trump terá caído na tentação de pedir a James Comey que pusesse fim à investigação a Mike Flynn, seu principal assessor para a segurança nacional, que estaria a ser investigado pelas suas ligações à Rússia. A notícia foi avançada terça-feira pelo jornal "The New York Times" e ontem a Reuters noticiava que elementos da campanha de Trump e funcionários russos terão tido, pelo menos, 18 contactos. A "Time" escrevia, antes deste caso se avolumar, que o presidente, ao afastar Comey do FBI, "deixou cair uma bomba, mas não se afastou do local da explosão". Uma frase premonitória.

Na mesma edição, a revista americana publica uma reportagem com o título "Trump fora de horas". Acompanhando o presidente dos EUA ao fim de um dia de trabalho no interior da Casa Branca, os jornalistas testemunham o ambiente que por lá se vive. Mostram algum espanto perante o fluxo constante de visitantes que passa diariamente na Sala Oval e presenciam alguma desordem que caracteriza hoje a sala onde Trump faz as refeições, dividindo a mesa com jornais e a sua atenção com a televisão de ecrã gigante que mandou instalar naquele espaço. O vistoso candeeiro de cristal dessa divisão terá sido comprado com o seu dinheiro. "Um presente meu para a Casa Branca", diz. Pelo meio da conversa, o presidente confessa que percebeu que cargo não lhe confere o estatuto de ser o mais poderoso da nação. Porque há agentes bloqueadores: o Congresso, o FBI e, claro, os média. Trump sabe identificar quem lhe pode retirar o poder. Agora, resta apenas saber governar (bem) o seu país.

* Prof. Associada com Agregação da UMinho