Opinião

Quais os limites das fontes?

Quais os limites das fontes?

A relação dos jornalistas com as fontes de informação quase nunca é desinteressada. Quem passa informação procura agendar determinados temas, consolidar a sua notoriedade ou atingir terceiros. Por isso, falamos de uma ligação atravessada por momentos de tensão ou afastamento, de negociação ou proximidade. Mas não são apenas os jornalistas que estão em causa. Os comentadores são hoje um actante importante neste processo de construção de influência. Por estes dias, eu própria testemunhei como esse processo pode ser perverso.

A literatura das ciências da comunicação é vasta na explicação do tipo de relacionamento entre fontes e jornalistas. Há teóricos que põem um substancial poder do lado das fontes que determinam a informação difundida, outros defendem a superioridade dos jornalistas concretizada na escolha dos enquadramento dos textos; outros colocam esta relação em equilíbrio, embora sempre precário. Herbert Gans, um conhecido teórico desta matéria, fala de uma "dança" em que as fontes procuram o acesso aos jornalistas e os jornalistas procuram o acesso às fontes, embora se defenda que os jornalistas tendem a assumir um certo comando. Seria preferível encarar tudo como uma dança em que cada um, a determinado momento, marca o passo, ainda que quem passa informação possa determinar muita coisa.

Como facilmente se imagina, há fontes com muito poder. Algumas vergam permanentemente o jornalista, parte das vezes através de sofisticadas técnicas. Seguindo uma perspetiva benigna dessa influência, o teórico Melvin Mencher defende que estas se constituem como "o sangue" do jornalista, na medida em que asseguram a informação que as redações procuram. Todavia, nesta reflexão há também que procurar as suas intenções e, acima de tudo, os modos adotados para fazer vingar o que se quer transmitir.

Falamos até aqui da relação fonte-jornalista, mas devemos ponderar igualmente que tipo de ligação pode existir entre as fontes e aqueles que comentam a atualidade. Num mundo ideal, os comentadores, embora encontrem nos factos a sua referência, deveriam construir a sua opinião desligada da influência de terceiros. No entanto, não é isso que acontece. As fontes, nomeadamente aquelas que pertencem a diversas esferas do poder, estão muito atentas não só às redações como àqueles que fazem comentário, exercendo por vezes inaceitáveis pressões. O caso que vivi por estes dias levou-me a refletir sobre os limites de atuação das fontes.

Fazendo ao sábado uma revista de imprensa na RTP, eis que fui surpreendida numa dessas manhãs por um telefonema de um político para um dos editores do canal queixando-se da forma como falei de si. O que estava em causa? Nesse dia, uma notícia de um jornal colocava em título que tal figura "não excluía o regresso" à disputa pelo cargo de presidente de uma das autarquias do país. O texto abria assim: "Não sou nem deixo de ser candidato. Se me apetecer ser, serei". No corpo da notícia, acrescentavam-se mais citações suas e escrevia-se que o seu ex-número dois tinha nessa semana "dado gás a esse cenário". Introduzindo essa notícia, disse que a pessoa em causa, uma figura muito conhecida de determinado partido, "ameaça agora candidatar-se" como independente. Ora, a birra do visado centrava-se apenas no verbo que usei, argumentando que nunca ninguém o terá visto de arma apontada a ninguém. Por isso, exigia a retificação em antena de tal devaneio oral.

Face a tão bizarro telefonema, poderia argumentar com os ensinamentos de Ferdinand de Saussure acerca da arbitrariedade do signo linguístico que permite que cada significante contenha vários significados, mas talvez essa incursão pelos fundadores da linguística fosse algo rebuscada para falar do esforço feito para prolongar uma noticiabilidade bastante linear. O propósito era, quiçá, eu voltar ao assunto para dizer que o senhor não era candidato, mas poderia ser. E desta vez usando palavras simples para todos entenderem que poderia haver mais gente nessa corrida eleitoral. O telefonema não teve qualquer efeito, mas permite-nos refletir sobre o à-vontade que certos interlocutores sentem para entrar pelo comentário adentro, transportando-nos por momentos para os velhos tempos do "delito de opinião", ainda que este caso remeta simplesmente para o factual.

PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO