Opinião

Quando o inimigo está em casa

Quando o inimigo está em casa

O referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia foi uma das bandeiras de David Cameron nas eleições gerais realizadas no ano passado. Todavia, o atual primeiro-ministro britânico não sabia que esta decisão iria abrir uma guerra no interior do seu partido. Uma espécie de luta de titãs em que o que está em causa é também a liderança dos Conservadores.

Foi no longínquo início de 2013 que o primeiro-ministro Cameron, num muito esperado discurso sobre a sua posição quanto à Europa, dirigido sobretudo ao eleitorado conservador, prometeu um referendo acerca da permanência do Reino Unido na UE, a realizar após 2015, ou seja, depois das eleições e se ele próprio fosse reeleito. Eis uma promessa que garantiria dividendos eleitorais e traria alguma paz sobre este assunto até ao escrutínio de maio de 2015. Perspetivado dali, o referendo parecia ainda distante. Muito distante. Mas o tempo foi passando e aí estamos frente a um calendário que fixa para 23 de junho essa consulta popular com caráter vinculativo. E as próximas semanas prometem abrir uma verdadeira e inesperada guerra civil no interior do Partido Conservador.

Dever-se-á reconhecer que o mayor de Londres, o turbulento Boris Johnson, nunca foi propriamente uma peça tranquilizadora no xadrez político dos Tories. Não por acaso, Cameron chama-o frequentemente para participar em reuniões quando se atravessam momentos políticos importantes, nomeadamente quando estão em causa questões europeias. Tal como as bases do Partido Conservador, Johnson é um eurocético que acumula um conhecimento da experiência feito. Entre 1989 e 1994, foi correspondente do "Daily Telegraph" em Bruxelas e, como se escreve na edição desta semana do "Courrier International", "era já uma estrela nas salas de Imprensa da Comissão Europeia". No fim de semana passado, quando estava na capital belga a negociar mais benefícios da União Europeia para o Reino Unido, Cameron mandou um emissário seu telefonar ao mayor de Londres para acertar um posicionamento conjunto. Johnson pediu licença para colocar o telefone em alta voz, porque em sua casa estava o ministro da Justiça e queria partilhar com ele aquela conversa. No número 10 de Downing Street, conhecia-se bem o euroceticismo de ambos. Logo ali se percebeu que a rutura estava criada no interior do partido e que isso iria rapidamente transpor-se para o espaço público. E, tendo sido jornalista, Boris Johnson soube adensar a expectativa com mestria, fazendo projetar enormemente nos média o anúncio da sua decisão a favor do brexit.

Neste ambiente, o embate que Cameron julgava travar sobretudo com o líder dos UKIP em semanas de uma campanha algo morna converteu-se subitamente numa gigantesca luta política. Porque, a par da definição do lugar que o Reino Unido terá na Europa, está em causa a liderança do Partido Conservador. Se o atual primeiro-ministro for derrotado neste referendo, não terá outra solução senão demitir-se do Governo e sair da liderança do partido. E aí a sucessão estará assegurada para Boris Johnson que beneficia ainda de pertencer a um partido pouco crente nas promessas europeias.

Do lado de Cameron, estão os líderes europeus que nos próximos tempos vão atemorizar o Reino Unido face a um eventual cenário de saída da UE, estão também os mais importantes empresários ingleses que temem o fim do mercado único, estão ainda muitos Trabalhistas que continuam a acreditar numa Europa comum... Do outro lado, sobressai parte de uma realidade que assusta os britânicos: a crise do euro, a vaga de refugiados que invade a Europa e ameaça o Reino Unido, o número de emigrantes que se multiplica ali...

A edição das principais revistas britânicas desta semana interpela os seus leitores a não encarar este referendo como um caso Cameron-Johnson e a procurar perceber bem os argumentos de ambas as partes. Todavia, há uma campanha que está na rua. E esta promete ser sensacionalista, de rutura e muito personalizada em dois homens que, pertencendo ao mesmo partido, estão em lados diferentes da barricada. Porque é preciso dividir para reinar.