Opinião

Que decisão é esta, TAP?

Que decisão é esta, TAP?

A interrupção das ligações aéreas entre algumas cidades europeias e o Porto é uma decisão que a TAP tem de ser impedida de tomar. Já! Porque a empresa tem capitais públicos e não deveria estar autorizada a fazer tudo, porque há ainda um processo de reversão da respetiva privatização parcial que está a ser discutido, porque, finalmente, coloca em causa equilíbrios relevantes de uma influente região do país. O problema aqui é não haver elites com força suficiente para travar esta guerra. No entanto, o presidente da Câmara Municipal do Porto pode ser aqui um influente ator para inverter esta insensata decisão.

Comecemos por lembrar que a Região Norte apresenta uma massa populacional de cerca de 3,7 milhões de pessoas (35 por cento do total nacional), concentra quase 40 por cento das exportações nacionais, tem tradicionalmente uma grande dinâmica sociocultural, alberga a segunda cidade do país que está premiada em diversos rankings como o melhor destino a visitar, integra três universidades públicas de referência ao nível da internacionalização do conhecimento... É, pois, irrefutável o valor estratégico desta região para o crescimento e a projeção do país. Ora, isso hoje faz-se em grande parte pela capacidade em construir e em fortalecer pontes com outras geografias e, neste contexto, as ligações aéreas são vitais. Daí ser inadmissível a pretensão da Administração da TAP em cortar a ligação do Porto com importantes cidades europeias e em desviar os voos com Vigo para Lisboa. Há, pois, que criar uma frente coesa de musculada resistência a esta decisão que é completamente ilegítima num contexto em que o Governo pretende retomar a maioria do capital da TAP.

Anteontem, o presidente da Câmara Municipal do Porto desdobrou-se em diversos palcos para denunciar a situação. Ouvida através da esfera mediática, a voz de Rui Moreira parece isolada e isso deve-se apenas ao facto de o Norte não ter personalidades com projeção nacional que consigam impor rapidamente as suas reivindicações. O autarca do Porto é uma das raras exceções. Se atendermos às autarquias, universidades ou empresas, reparamos que os respetivos líderes têm, sobretudo, um destaque regional. Fazem parte da província, considerarão alguns daqueles que, a partir de Lisboa, olham para o chamado resto do país como uma parte atrasada do Portugal que julgam projetar-se somente através de Lisboa. Estão enganados, mas também é verdade que poucos são aqueles que procuram desfazer o preconceito. A este nível, a esfera mediática poderia desempenhar uma função importantíssima, se não estivesse completamente asfixiada.

Se nos circunscrevermos à Imprensa, apenas o "Jornal de Notícias" faz uma aposta forte no Norte, colocando aí a sua principal redação. Os restantes títulos têm no Porto delegações que, nos últimos anos, foram sendo impiedosamente decapitadas. Nos plateaux televisivos, a informação, nomeadamente a opinião, declina-se sobretudo com atores de Lisboa, com exceção do operador público que, em determinadas franjas horárias, emite a partir do Centro de Produção do Norte. São, pois, esses projetos editoriais descentralizados que permitem criar elites noutros pontos do país. Convinha perceber que a força dos média e a dos atores que privilegiam funcionam como uma espécie de espelho: quanto mais forte um conseguir ser mais o outro ganhará relevância. O contrário também é verdade e corresponde mais à realidade...

Por estes dias, a TAP vai procurar abafar as exigências do Norte. O Governo, a braços com o Orçamento do Estado e ainda com o problema da privatização da empresa por resolver, não vai querer envolver-se muito no assunto. Há, pois, que reinventar estratégias. Uma delas é não dispersar posições. O Norte tem de unir-se de forma coesa, permanente e fazer desta decisão uma questão nacional. Autarcas, associações, personalidades da cultura, do desporto, da ciência têm de criar uma frente contra esta vontade da TAP. Porque isto não é um problema do Norte. É um problema de equilíbrio nacional. E isso afeta-nos a todos. Como nação.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO