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Opinião

Que fontes são essas na justiça?

Que fontes são essas na justiça?

A mediatização da Operação Marquês tem sido construída com fontes não identificadas. Como, aliás, a de outros processos mediáticos. São essas fontes desconhecidas da opinião pública que vão urdindo na penumbra labirínticas estratégias com objetivos bem definidos. Há uma semana, mexiam-se para fazer publicar nos jornais que haveria uma acusação que seria hoje fechada. Vai ser adiada. Neste contexto, o Ministério Público deveria explicar porquê. E já agora procurar exterminar fontes que tanto falam sem que ninguém lhes exija o que o jornalismo pressupõe: a prova da verdade.

"Ministério Público ouve Sócrates e vai acusá-lo de corrupção", titulava no sábado o "Expresso". No interior do jornal, "uma fonte que não quer ser identificada" assegura que os indícios recolhidos no início do inquérito foram "consolidados" e a prova conseguida é "robusta". O jornal garante não haver dúvida de que "José Sócrates vai ser acusado de corrupção, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais". A peça alude a outras fontes não identificadas e é daí que advém a informação de que "o Ministério Público alega que Sócrates foi corrompido a troco de 23 milhões de euros em três situações". O jornal cita o Grupo Lena, o resort de Vale do Lobo e os interesses do GES nos negócios da PT. No mesmo dia, o "Correio da Manhã" aumenta essa quantia para 32,8 milhões de euros. Parece que sabemos tudo. Com pormenor. Na semana anterior, o "Expresso" escrevia em manchete que "a procuradora-geral quer acusação a Sócrates pronta em duas semanas". A notícia cita outra "fonte que não quer ser identificada" que diz que "a orientação é acabar a acusação no prazo".

Paralelamente a interlocutores que, sob anonimato, têm criado pressão máxima sobre este processo, o que diz o Ministério Público? Oficialmente, sobressai um silêncio pesado. E até mesmo o gabinete de Imprensa da Procuradoria-Geral da República não tem, neste tempo, difundido informação capaz de travar o caudal de dados que os média vão multiplicando. Será isto possível? Poderá a justiça comunicar assim com os média num contexto de intensa cobertura jornalística sobre casos acerca dos quais se avolumam imparáveis notícias?

Tendo em conta o que os média noticiaram nos últimos dias, hoje conheceríamos a acusação de um processo aberto oficialmente em julho de 2013. Assim não é. E há explicações que se impõem.

Em primeiro lugar, é preciso fundamentar bem por que são necessários mais dois meses para concluir a investigação. E essa justificação tem de ser assumida pelo Ministério Público. De forma inequívoca, pormenorizada e ao mais alto nível. Depois, os média também devem explicações. Apoiando a sua informação em fontes não identificadas, mas que certamente lhes merecem grande credibilidade, diferentes órgãos de Comunicação Social foram, nestes dias, garantindo que hoje seria divulgada a acusação a José Sócrates. Ora, não é assim. E quem assumiu essa informação, tomada como verdadeira, deve--nos esclarecimentos.

A cobertura noticiosa da justiça mudou muito nos últimos anos, mas essa evolução também originou práticas que precipitam este campo num enorme e temível labirinto. Encontrando nos média espaço para vingar determinadas versões dos factos, um conjunto substancial de atores vem abrindo informais canais de comunicação com os jornalistas sem nunca assumirem, em nome próprio, a informação que transmitem. A multiplicação de rumores torna-se imparável. Por seu lado, os jornalistas tentam furar por entre um enredado segredo de justiça e um opaco sistema que, refugiando-se num anacrónico mutismo, nada diz, com a convicção de que o silêncio garante rigor nos processos e credibilidade a quem os conduz. Enganam-se.

Os responsáveis máximos da justiça têm a obrigação de comunicar mais. E melhor. Porque só assim travam rumores. Por seu lado, os média devem selecionar criteriosamente as suas fontes. Os processos mediáticos não podem ser uma oportunidade para colocar em cena uma justiça incapaz e lenta frente a jornalistas ávidos de informações que mais não fazem do que descredibilizar o que se quer investigar para depois eventualmente julgar.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO

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