Opinião

Quem enfrenta as praxes?

Quem enfrenta as praxes?

Quando os quatro estudantes da Universidade do Minho se sentarem no banco dos réus acusados de homicídio por negligência durante uma "guerra de praxes", não estarão ali sozinhos. Na sua sombra, esconde-se quem, neste tempo, teve responsabilidades para controlar as praxes e não atuou. A este nível, cada um à sua maneira, também somos culpados. Porque não nos indignamos o suficiente com práticas frequentemente criminosas. Como aquela que vitimou três alunos da UMinho a 23 abril de 2014.

Falemos claro. Os reitores não gostam de se pronunciar acerca das praxes, porque isso melindra as relações com as associações académicas. E os reitores precisam de dirigentes satisfeitos para os reelegerem nos conselhos gerais, para os apoiarem nas suas políticas, para os elogiarem nos atos públicos... Os presidentes das associações académicas também não falam disto, porque os chamados veteranos, ou seja, os estudantes com um número de matrículas superior ao necessário para obter um curso, são aqueles que mais frequentam as sedes estudantis, particularmente em tempos de receção ao caloiro que, reconheça-se, estão cada vez mais dilatados. Por isso, este assunto não é discutido onde seria mais profícuo: nas reitorias que gerem as universidades, nas associações académicas que tão bem conhecem os praxistas. Consequentemente, nada muda. Em cada ano, lá temos as desassossegadas e perigosas praxes a tomarem conta dos campi e das respetivas zonas envolventes.

Tomemos o exemplo da Universidade do Minho onde trabalho. Depois da tragédia de abril de 2014, esperar-se-ia uma mudança radical no modo como se inicia o ano letivo. Tudo continua como sempre. Na sessão de acolhimento dos alunos do primeiro ano, o reitor fez saber que o evento não aconteceria se houvesse ali gente com o rosto pintado. A associação académica resolveu o problema limpando, à entrada do edifício, a cara de cada estudante com um toalhete, eliminando, desse modo, marcas visíveis de uma praxe que abundava no exterior. Este faz-de-conta-que-mudamos-para-tudo-ficar-na-mesma imobiliza-nos em práticas que nos envergonham. Poucos ousam agendar o tema. Opta-se por declarar que não se vê, não se sabe, não se assiste, quando todos sabem que isso não tem correspondência com o real de que se evita falar.

Casos como o do Meco e o da UMinho terão réplicas num futuro próximo. E isso deveria inquietar o ministro da tutela, o presidente do Conselho de Reitores, os reitores, os presidentes das faculdades... Quem tem mais responsabilidade é quem tem agido menos para impedir a progressão de praxes cada vez mais radicalizadas. Não vale a pena atirar para os media argumentos que se desculpabilizam com o facto de os acidentes terem acontecido fora dos campi. Todos sabem que o embrião das praxes está no coração de cada universidade. É aí que devemos atuar. É preciso que os responsáveis pelas academias difundam um posicionamento de musculada oposição a praxes que coloquem em causa a integridade dos seus estudantes. Os novos alunos têm o direito de se sentir protegidos. E não sentem isso.

Neste contexto, impõem-se respostas a várias perguntas. O que fazem as universidades para garantir segurança aos seus novos estudantes? O que fazem as universidades para neutralizar o grau de violência das praxes? O que fazem as universidades para transformar práticas criminosas em comportamentos de verdadeiro acolhimento? Cada um de nós que trabalha numa universidade tem o dever de denunciar práticas violentas que todos os dias se multiplicam diante de nós. Para que isso aconteça, quem tutela e governa as nossas universidades deve estar na linha da frente deste combate. Infelizmente, essa gente é quem mais foge para o quarto dos fundos da casa que governa, ficando ali a espreitar pelo buraco da fechadura à espera que as tempestades passem. Que vergonha.

É tempo de dizer basta! Basta de tanta hipocrisia! Basta de tanta passividade! O mar do Meco que engoliu os estudantes da Lusófona e o muro de Braga que esmagou os alunos da UMinho não podem ter réplicas. Porque o problema está há muito identificado. Haja coragem para o enfrentar.