Opinião

Quem ousa mudar?

Mudança. Eis o vetor que estrutura todas as candidaturas à Presidência da República. Cada um a seu modo, todos se esforçam por assegurar que a sua magistratura será muito distinta daquela adotada por Cavaco Silva. Fazem bem, porque o atual presidente da República abandonará Belém pela porta dos fundos de tão desastrada que tem sido a sua intervenção política. Mas mudar implica muito mais do que uma postura distinta. Exige uma outra forma de pensar e de agir. Em todos os momentos e a vários níveis.

Será Marcelo Rebelo de Sousa quem terá mais dificuldade em soltar-se do legado de Cavaco Silva, mas o professor já vem ensaiando há muito uma distância para renegar a herança cavaquista. No plateau do noticiário da TVI, criticou corrosivamente várias intervenções do PR; agora, em pré-campanha, tem situado o seu discurso ao centro, dando engenhosamente algumas alfinetadas àquilo que se decide em Belém. É uma boa estratégia, mas não chega.

Cansados de um período eleitoral árduo, os portugueses estão pouco disponíveis para uma campanha atufada em velhos candidatos e vazia de novas ideias. É preciso renovar tudo. Em primeiro lugar, o programa eleitoral. Quem quer ocupar o mais alto cargo da Nação tem de explicar bem o seu posicionamento em relação aos poderes que a Constituição lhe confere e, simultaneamente, propor uma nova agenda de trabalho. Tem razão Sampaio da Nóvoa, quando, anteontem, em entrevista à SIC, declarou que a política é hoje diferente do século passado, necessitando, por isso, de uma outra agenda. O candidato propõe que se promova um debate sobre a qualidade da democracia, a importância do conhecimento e o papel de Portugal na Europa. Faltou acrescentar que é preciso fazer isso com novos atores, porque estamos muito saturados da velha confraria que asfixia o espaço público português.

Também se impõe um outro modo de fazer campanha. Marcelo Rebelo de Sousa é, a esse nível, o que tem surpreendido mais, colocando-se numa espécie de antissistema mediático. É curioso. Não tem cartazes, chega aos locais que visita prescindindo das habituais comitivas e sobe a palcos preenchido apenas com a bandeira de Portugal como elemento cénico. Marcelo sabe que este aparente despreendimento do marketing partidário tem um enorme impacto junto de uma opinião pública enfartada de mensagens criadas por agências de comunicação bem pagas. Nada é por acaso em Marcelo, que tem um sentido apurado daquilo que deve dizer e a forma como o pode fazer. Veja-se o cenário escolhido para a entrevista de segunda-feira à noite à SIC. Em vez de se deslocar a Carnaxide para conversar em estúdio com Clara de Sousa e Anselmo Crespo, Marcelo levou os jornalistas até à Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e fê-los sentar numa sala em que entrevistado e entrevistadores tinham como cenário dois quadros de professores devidamente trajados. Esqueça-se o político e minimize-se o comentador. Estava ali o professor. Genial na forma e procurando ziguezaguear as perguntas que o colocavam à direita no espectro partidário.

Hoje, Maria de Belém terá a sua entrevista na SIC. TVI e RTP já fizeram o mesmo exercício. Em ambos os momentos, vimos uma candidata esforçada em se distanciar de Sampaio da Nóvoa e apostada em atirar à cara de Marcelo tropelias que lhe subtraem credibilidade. É preciso mais, mas ainda faltam muitos dias até 24 de janeiro.

Até agora, as sondagens têm sido favoráveis a Marcelo, mas ainda tudo pode acontecer. Se houver uma segunda volta, o candidato vencedor pode ser aquele que vingar à esquerda. Rebelo de Sousa sabe disso. Daí o seu discurso ao centro e, aqui e ali, com o olho mais à esquerda. No entanto, Marcelo é o candidato da direita, apoiado pelo PSD e pelo CDS e, nos próximos dias, debater-se-á com concelhias partidárias que vão exigir a sua presença nos seus círculos eleitorais onde se confundirá a campanha presidencial com o ataque ao Governo de António Costa. Aí estará a velha política, incapaz de se renovar de um dia para o outro. Voltaremos ao assunto numa próxima crónica.