Opinião

Quem quer casar com...?

Quem quer casar com...?

Há muitos anos, a televisão entrava pelos casamentos adentro para filmar o noivo, a noiva, os pais... E lá participava na boda ao lado da família que se abrilhantava ainda mais para as câmaras de TV. Este real genuíno existia para além de qualquer programa. Já não é esse o mundo do entretenimento televisivo. Hoje, os formatos fabricam a sua própria realidade, que não passa de uma mentira. Que poderia ser inócua, se certos formatos não colocassem um privado em público feito de comportamentos obscenos e construído por uma linguagem indecorosa. Esta semana, surgiu uma novidade: programas que ridicularizam mulheres e põem a nu homens sem qualidades.

A 26 de abril de 1994, a SIC estreava em horário noturno "Cenas de um casamento", um formato inovador para a época, apesar de corresponder a uma ideia simples: filmar casamentos de cidadãos sem notoriedade pública. Ao longo do programa, os telespectadores lá iam para a festa de braço dado com o apresentador Guilherme Leite que chegava sempre cedo para falar com a família e testemunhar os preparativos da boda. E por lá ficava até ao fim do copo-d"água. Esta semana, os canais privados voltaram a apostar no filão da TV casamenteira, mas absorvendo aquilo que, neste tempo, a programação foi construindo: novelas da vida real. Que, em alguns momentos, são repugnantes.

Comparando "Quem quer casar com o meu filho?" (TVI) com "Quem quer namorar com o agricultor?" (SIC), facilmente se conclui que o primeiro formato é mais violento. Na encenação das relações dos concorrentes e na construção dos respetivos discursos. Poder-se-ia aqui censurar o facto de se olhar a mulher como objeto desprezível quando se apresenta no papel de mãe, quando exibe alguns quilos a mais ou quando revela hábitos recatados... No entanto, o homem que se coloca em cena numa postura de superioridade também não exibe de si a melhor imagem. Nada dizendo sobre aquilo que é, o concorrente masculino surge à procura de uma mulher objeto, precisando, tal como uma criança em idade pré-escolar, do auxílio da progenitora para fazer escolhas. "Sabes cozinhar? O meu filho é de muito alimento...", dizem as mães em tom altivo para as submissas raparigas que se sentam diante de si, envergando espalhafatosas toiletes. As cenas são ridículas. E abjetas, quando seguimos o fio condutor de cada conversa.

Este modelo de televisão não é novo. Surgiu em setembro de 2000, com a estreia do "Big Brother" na TVI que, na altura, ocupava o terceiro lugar nas audiências, atrás da SIC e da RTP1. O então diretor-geral da estação, José Eduardo Moniz, resolveu arriscar o formato da Endemol, anteriormente negociado com a SIC que manifestara vontade de o comprar para ninguém o emitir. A ideia era mantê-lo longe das grelhas. Emídio Rangel temia esta nova oferta televisiva que rapidamente catapultou a estação concorrente para a liderança audimétrica. E que tem tido sucessivas réplicas na oferta televisiva dos últimos 18 anos.

Assumindo agora a liderança das audiências, espera-se que a SIC transforme a programação televisiva. É um facto que as manhãs televisivas se alteram-se substancialmente com "O Programa da Cristina". Também é inegável o passo em frente que o grupo deu na informação. No entanto, os serões continuam à espera de uma revolução. Que tarda em chegar.

Se excluirmos os noticiários e a ficção nacional, as noites dos canais privados preenchem-se quase sempre com novelas da vida real que insistem em mostrar o pior de nós. "Não é mulher para ti", repete a mãe de um concorrente, depois de despachar uma pobre rapariga que revelou ter um filho. Em casa, também vamos pensando que esta televisão não é para nós.

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO

Imobusiness