Opinião

Renascer

Não gosto do Natal das compras despachadas à pressa, das lojas transbordadas de insuportáveis ruídos, do trânsito que se adensa vagarosamente as ruas, das SMS padronizadas... Gosto, antes, do Natal dos presépios, das luzes intermitentes no silêncio da noite, dos encontros com quem mais gostamos... E gosto de olhar esta época como um tempo de renascimento. Da esperança, das convicções, do que somos.

Numa altura em que tanto cultivamos o consumo de bens perecíveis e valiosos, talvez possa ser desajustada a apologia da simplicidade ou desadequado qualquer discurso centrado na imaterialidade. Poderia aqui deter-me na leveza, levada pela leitura de Gilles Lipovetsky que elegeu essa proposta, feita há vários anos por Italo Calvino, para falar da civilização do ligeiro, que é a nossa, permanentemente atraída pelo ultraleve, pela miniaturização ou pela desmaterialização. Aquilo de que me ocuparei não necessita de protocolos de leitura muito complexos. Aliás, podemos até prescindir dessas chaves interpretativas dada a linearidade dos tópicos.

Comecemos pelos presentes. As ofertas que fazemos deveriam ser mais do que embrulhos despachados em conjunto numa loja que elegemos por acaso. Deveriam ser sempre pensadas com tempo, procuradas com paciência, entregues com prazer. Essas, sim, serão sempre prendas valiosas, porque nos transportam com elas e aí ficaremos por muito tempo. Também os presentes para as crianças deveriam ser mais do que copiosos volumes amontoados junto da árvore de Natal, escondendo brinquedos que nunca experimentaremos com os mais novos. Colocamo-los nas mãos dos mais pequenos que lá os acumulam no seu quarto, no meio da solidão que arrastam durante o ano. Pobres crianças as nossas que, na noite da consoada, se embriagam com tantos presentes, mas que, passados esses dias, lá regressarão às brincadeiras solitárias, porque quem lhes dá prendas tem tarefas mais importantes para desempenhar.

Nestes últimos anos, o Natal viu-se assaltado pelas mensagens de telemóveis. E eis que, em plena noite de consoada, há sempre alguém que tem mesmo de responder a esta e àquela mensagem... E, no meio da preparação do jantar que se procura fazer em conjunto ou em pleno desenrolar de uma conversa que nos ata uns aos outros num espírito familiar, há sempre alguém que se afasta para atender uma chamada ou responder a SMS que chegam com os votos de um feliz Natal. Que seriam mais consistentes, se, na verdade, se desligassem certos circuitos comunicacionais com quem, por vezes, mal se conhece mal.

Com as festividades a ganharem maior sofisticação, há quem, por estes dias, fuja de casa e se instale num hotel para consoar. Poder-se-ia ver aí um sinal claro de uma sociedade desorientada dos seus traços identitários, divorciada das suas raízes, desinteressada deste espírito natalício..., mas também é verdade que, por entre essas escolhas, sobressai gente que foge das lembranças de um Natal que já foi feliz e que hoje se julga impossível recuperar... Certamente que a reprodução fiel de um tempo de boas memórias se torne impossível de alcançar, mas há sempre modos de renascer. E é isso que o Natal nos traz de mais valioso: a esperança de reconstruir caminhos. De nos reconstruirmos.

Por esta altura, faltam-nos sempre pessoas para que a celebração seja plena, mas talvez fosse melhor pensar que elas estarão sempre connosco na forma de boas recordações e bons sentimentos. É assim que nascem as estrelas que brilham quando olhamos o céu nas nossas noites. Hoje estarão lá à nossa espera, amanhã também... e serão sempre um dos melhores presentes do nosso Natal...

Não será fácil descobrir todo este espírito natalício que passa para além do frenesim das compras com laços vistosos, do aparato de mesas com os melhores serviços de loiça ou do amontoado de presentes sem alma. Mas, se olharmos mais devagar para a Luz que sobressai desta época, vamos sentir estes dias de modo diferente. E é nesse brilho que estão os meus votos de um Feliz Natal para todos.

* PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA U. MINHO