Opinião

Rio, o PSD e os jornalistas

Rio, o PSD e os jornalistas

A partir de hoje, um dos tópicos que dominará o noticiário é o 37.º Congresso do PSD que decorre em Lisboa. Ao longo de três dias, não há nada de muito relevante para saber. O presidente do partido está eleito. Trata-se, acima de tudo, de uma reunião aclamativa, mas, neste caso, os dias que antecederam este encontro não se preencheram propriamente de discursos consensuais à volta daquele que vai comandar os sociais-democratas. Os média foram ampliando todas as disrupções que saíram do interior do próprio partido. E, com isso, criaram factos políticos.

A imagem sombria estendida por duas páginas é tenebrosa. Uma semana depois de ter sido eleito presidente do PSD, o "Expresso" publica um extenso texto sobre Rui Rio, enquadrado por uma fotografia onde se vê o político sozinho, à porta de um escuro hotel de Lisboa. Numa caixa, escreve-se que Rio costuma ficar sempre "numa unidade de três estrelas perto do aeroporto e da A1". Chegava, assim, à corte da capital um político vindo da província. A uma semana do Congresso, o mesmo semanário promove uma grande entrevista com um Santana Lopes fotografado em pose de Estado. No mesmo dia, o "Sol" conta que o rival de Rio nas recentes eleições diretas organizara naquela semana um jantar em sua casa com uma agenda de trabalhos dominada por um ponto: preparar aquela entrevista que, como se perceberá, fixa uma espécie de contrapoder. O título marca o registo de toda a conversa: "Há legitimidade para discordar e não renuncio a ela". No texto lê-se ainda o seguinte: "Eu não defendo que se pode difundir a água e o azeite". Percebe-se o significado dos tempos verbais, declinados num inequívoco presente do indicativo. Não há aqui espaço para conjuntivos a desenhar hipóteses que possam ser rebatidas. Há vontades. Para se cumprir. Vira-se a página, e eis que surge o presidente da República fotografado em casa a sustentar uma notícia sem qualquer fonte identificada, mas assegura-se que "Marcelo Rebelo de Sousa está preocupado com o futuro do centro-direita". Mensagem captada, vinda de Belém através de Ângela Silva, uma das jornalistas mais bem informadas acerca daquilo que se pensa na Presidência sobre a política portuguesa.

Por estes dias, muito se falou de Rui Rio e não se poderá dizer que as conversas protagonizadas por gente do seu partido lhe prepararam uma chegada confortável a este Congresso. Ampliado pelos média noticiosos, o ceticismo evidenciado por notáveis do PSD deu nas vistas. O ex-líder da distrital do PSD de Lisboa Miguel Pinto Luz escreveu uma carta aberta a Rio que mais parece um manifesto da Oposição; o presidente do Governo Regional da Madeira deixou uma série de recados em entrevista à TSF; Carlos Abreu Amorim assegurou ao jornal "i" que não está disponível para cargos com esta nova equipa; e Hugo Soares, na despedida da liderança da bancada parlamentar, lembrou aos jornalistas "o legado" de Pedro Passos Coelho, que considerou "um dos melhores primeiros-ministros da história de Portugal". Rui Rio não terá vida fácil.

Já se percebeu que uma parte dos barões do PSD prefere não se posicionar ao lado do novo presidente. Uma das barricadas a ganhar fôlego nos subterrâneos do partido estará no interior da respetiva bancada parlamentar. Há, pois, que lidar com este grupo com muita perícia.

O campo dos média também impõe um cuidado acrescido. Rui Rio não tem propriamente um passado de proximidade com os jornalistas. E isso não lhe é favorável. A esta dificuldade, junta-se uma outra: a exigência de se relacionar com jornalistas das redações de Lisboa. Rio conhece melhor aqueles que trabalham no Porto. É preciso criar canais de rotina através dos quais se possa comunicar de forma fluida e, acima de tudo, montar uma eficaz estratégia de comunicação política. Que necessita de ser adaptada a um tempo em que a comunicação se faz de forma permanente e multiplicada em plataformas diversas. Rio tem de perceber que não vingará se não conseguir passar a sua mensagem. Para dentro e para fora do partido. Esse será o seu maior desafio.

* PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA U. MINHO