Opinião

Ser mãe e ter aspirações profissionais

Ser mãe e ter aspirações profissionais

Quem é mãe e ambiciona ter uma carreira profissional saberá que enfrenta diariamente o gigantesco desafio de fazer uma espécie de quadratura do círculo.

É claro que iniciativas como o "programa 3 em linha", apresentado anteontem pelo Governo, ajudam a equilibrar a vida familiar com a profissional. Mas não chegam. Porque há uma revolução por fazer. Dentro de casa, ou melhor, dentro de cada um de nós.

Num lar com crianças em idade escolar, o dia começa cedo. Há lanches para fazer, mochilas para apetrechar, roupas para preparar... Geralmente, ali está a mãe a correr silenciosamente de um lado para o outro, evitando acordar a família que, àquela hora, ainda estica o sono. O frenesim há de depressa surgir e aí, entre as habituais correrias, a mãe prepara o pequeno-almoço, ajuda os mais pequenos a vestir, lembra as atividades extracurriculares do dia... No intervalo de tantas tarefas, haverá de encontrar um intervalo para se arranjar e arrumar a sua mala para o seu dia de trabalho... Que poderá começar dali a pouco ou ainda demorar quando há filhos para transportar para a escola.

Se não acontecer nada de disruptivo na rotina semanal (consultas médicas, uma gripe...), as mães com filhos pequenos lá vão procurando apertar os afazeres profissionais ao longo de um dia que se procura não prolongar excessivamente, porque há outra vida (a familiar) para pôr em marcha ao final da tarde. Por isso, impõe-se disciplina no que há para fazer. É curioso, por exemplo, observar os locais de alimentação à hora de almoço num dia de semana. Geralmente, em restaurantes onde se fazem refeições mais demoradas, as mesas enchem-se de homens que aproveitam essas pausas para conversar ou para reuniões de trabalho mais descontraídas que se estendem por mais tempo, principalmente para aqueles que não têm uma hora para finalizar o trabalho. Não é assim para quem tem filhos a seu cargo, nomeadamente para as mães. Ao final da tarde, é preciso transportar as crianças para casa e aí há banhos para tomar, trabalhos de casa para realizar, uma refeição para fazer e, idealmente, uma conversa para partilhar... Aqui está um retrato genérico da vida de todos os dias das famílias com filhos onde as mulheres continuam a assumir grande parte das tarefas. Que parecem irrelevantes, mas sustentam o equilíbrio familiar e o futuro dos mais novos. Que parecem simples, mas exigem tempo e consomem quem as realiza.

Quem tem filhos e os assume sem ajudas externas enfrenta uma colossal dificuldade em conciliar a vida familiar com compromissos profissionais. Para quem tem carreiras desafiantes, esses obstáculos provocam nas mulheres uma pesada frustração, ainda que a chegada de uma criança represente uma indizível felicidade. Poder-se-á ver no desenvolvimento de políticas públicas facilitadoras de maior flexibilidade dos horários de trabalho uma forma de neutralizar constrangimentos. No entanto, há um problema que sempre subsistirá, se não se combaterem os papéis tradicionalmente entregues a uma mulher e a um homem. É também por aí que as mudanças devem passar.

Paralelamente às medidas que os Governos concretizem a favor de uma maior integração das mães nos respetivos ambientes de trabalho, há também que cuidar daquelas que querem continuar a trabalhar e a desenvolver a sua carreira profissional. O nascimento de um filho não pode matar as ambições profissionais dos pais. Do pai e da mãe. Para tal acontecer, há ainda um longo caminho a percorrer no que diz respeito à aprendizagem dos papéis sociais que cada um é chamado a ter. Neste contexto, a escola tem obrigações acrescidas. E cada um, em sua casa, também. Porque um bom exemplo poderá sempre ser replicado mais tarde, quando os nossos filhos se tornarem pais. É, sobretudo, a partir das bases que essa revolução se tornará possível.

Professora Associada com Agregação da Universidade do Minho

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