Opinião

Ser próximo

Dias difíceis estes que nos empurraram para a despedida de um dos maiores nomes de sempre, de um Portugal à procura de uma identidade que lhe restituísse alguma autoestima, depois de anos ajoelhado a uma férrea ditadura. Nos permanentes diretos televisivos, olhei devagar para os anónimos que acompanharam a urna de Mário Soares e segui atentamente os depoimentos de comentadores da Esquerda e da Direita. Todos se encontravam num agradecimento sentido a Mário Soares. Por aquilo que fez (embora isso nem sempre reúna consenso), mas sobretudo por aquilo que foi: alguém que cultivou com os portugueses uma proximidade genuína, calorosa e contagiante.

Os políticos mostram-se, por regra, de cumprimento espontâneo e de conversa natural. Conhecemos o à-vontade que encenam em várias circunstâncias, principalmente em campanhas eleitorais. Na obra "A apresentação do eu na vida de todos os dias", Erving Goffman explica bem o quão construída pode ser essa zona de fachada que frequentemente tanto se distancia da chamada região de bastidores onde deixamos à solta aquilo que somos. Mário Soares, apesar de conhecer o valor daquilo que mostrava ser em público, não teria muita paciência para representações elaboradas, nem para cálculos astutos de uma apertada gestão da imagem. Por isso, era, por vezes, irascível, impertinente, fleumático. Como qualquer um de nós. Nestes dias, ouvi o seu fotógrafo de sempre, Alfredo Cunha, dizer que o apreciava sobretudo pelos defeitos. Porque o aproximavam da gente comum. E isso, que foi sempre um grande trunfo seu, é hoje um legado político inestimável.

Numa era vergada a lógicas mediáticas que escrutinam tudo, a política tornou-se hoje um exercício calculado ao milímetro por assessorias de comunicação que travam improvisos e retiram espontaneidade àquele que se ocupa do bem comum. Adicionalmente, há ainda os "spin doctors" que fazem circular pelo espaço informativo determinadas versões daquilo que importa impor, poupando ao homem público a tarefa de multiplicar posicionamentos diversos. Mário Soares nunca foi uma personalidade que se vergasse com facilidade àquilo que os seus conselheiros lhe diziam. Ele próprio construía a sua estratégia de comunicação que concretizava de forma natural junto dos jornalistas, com quem manteve sempre uma benigna proximidade. Muitos foram aqueles que, nestes anos, o visitavam e consigo conversavam em casa. E, mesmo dele discordando, apreciavam essas tertúlias.

E depois há o povo para quem Soares foi fixe. Porque dessacralizou os lugares por onde passou, principalmente o de presidente da República, abeirando-o em permanência do povo. Nestes anos, não houve o candidato das campanhas e, depois, o primeiro-ministro, o presidente ou o ex-presidente. Mário Soares foi, ao longo da sua vida, ele próprio. Com fleuma nas atitudes, com naturalidade na postura, com simpatia nos gestos. Um estadista, mas um bonacheirão. Um dos nossos maiores políticos, mas também pouco protocolar. Miguel Sousa Tavares recordava um dos episódios da campanha de 1986 em que Soares fugiu da caravana depois do almoço para pedir a uma popular para fazer uma sesta na sua modesta casa.

Nem todos aplaudem as suas opções. Mas todos lhe reconhecem que essa possibilidade de discordar a ele muito se deve. Nem todos apreciaram o modo como geriu o bem comum, mas cada um de nós sabe o quanto foi importante para unir o país num agitado pós-25 de Abril e, depois, para fazer habitar em Belém um presidente de todos os portugueses.

A partir de agora, a história encarregar-se-á de enquadrar muitos acontecimentos que protagonizou e neles integrar o seu nome. Há, no entanto, dimensões que nunca serão suficientemente descritas: a da proximidade que este homem soube manter com todos, a do exercício de tolerância que procurou cultivar, a simpatia que soube multiplicar. Que o exemplo abra vias para outros seguidores nestes tempos cada vez mais líquidos, como bem teorizou Zygmunt Bauman, o sociólogo de quem também nos despedimos esta semana.

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO