Opinião

Somos Charlie?

Há uns curtos três meses, o mundo ocidental proclamou-se Charlie, criando-se rapidamente uma volumosa onda noticiosa em defesa da liberdade de imprensa. Neste hiato de tempo, quase nos esquecemos do brutal atentado de Paris, mas ontem a capa da revista francesa "L"Obs" (que corresponde à renovação do "Nouvel Observateur") enchia-se com Stéphane Charbonnier, o conhecido cartoonista e diretor do satírico "Charlie Hebdo", que nos deixou um testamento em forma de livro. Para que certos valores não sejam esquecidos.

Parece mais um texto dirigido aos seus carrascos este que Charb concluiu poucos dias antes de morrer no brutal atentado na redação do seu próprio jornal. Considerando a obra que agora se publica uma "carta aberta aos escroques da islamofobia que fazem o jogo dos racistas", o jornalista garante que "Charlie Hebdo" nunca perseguiu os muçulmanos, assegurando que as caricaturas são um meio para comentar a atualidade, sem, de modo algum, se pretender fazer generalizações. "Se desenhamos um velho pedófilo, não significa que todos os velhos sejam pedófilos", escreve para explicar que o polémico cartoon de Maomé com um turbante na cabeça em forma de bomba destinava-se a "denunciar a instrumentalização da religião pelos terroristas". Nota-se, ao longo do texto agora conhecido, uma grande preocupação em arrefecer a polémica que o "Charlie Hebdo" vinha adensando desde que decidira republicar os controversos cartoons do jornal dinamarquês "Jyllands Posten" que, em 2005, tanta contestação causaram. "As caricaturas de Charlie não visam atingir os muçulmanos", repete-se ao longo deste livro em que Charb diz acreditar que o povo muçulmano não é intolerante, nem o islão será incompatível com o humor. Mas o jornalista também sabia que muitos seguem os livros sagrados à letra, daí resultando inevitáveis "banhos de sangue".

Percorrendo os excertos que a revista "Obs" antecipa da obra, sentimo-los quase como uma premonição de tudo aquilo que veio a acontecer, mas também como uma espécie de testamento dirigido aos camaradas de profissão, fazendo-se aí a apologia de valores que continuam hoje, como no passado, a ser a essência do campo jornalístico: a independência em relação aos vários poderes, nomeadamente político; o compromisso com aquilo que é importante tratar; a denúncia das disfuncionalidades sociais e o escrutínio daquilo que está no domínio público. Esta postura de grande liberdade, e de indiscutível coragem, tem, no entanto, de ser cruzada com a permanente preocupação que Charb manifesta em relação a interpretações que, na sua perspetiva, sempre tentaram encostar abusivamente o seu jornal a uma postura islamofóbica que não era de todo a sua, nem a da sua equipa. Na linha editorial do jornal, tomava-se como prioritário o combate ao extremismo religioso, nunca podendo a parte ser tomada pelo todo. Mas não era assim que se encaravam os conteúdos informativos e hoje percebe-se que o diretor do "Charlie Hebdo" estava consciente dos enormes perigos que corria. Mesmo assim, não se curvava face às ameaças que um projeto jornalístico como o seu atraia em permanência, como demonstra o livro que agora se publica com a autorização da família.

Talvez cada um de nós, que se mobilizou durante horas frente às notícias dos atentados de Paris, tenha hoje uma pálida ideia daquilo que significa ser Charlie. Se nos circunscrevermos ao terreno mediático, isso implica seguir uma agenda alternativa, não ceder a pressões e lutar pela liberdade. Mas implica também uma grande responsabilidade relativamente ao trabalho que se desenvolve e um diálogo permanente com aqueles para quem os conteúdos se dirigem. Charb optou por escrever um livro para explicar as opções que tomava e reclamar um campo de autonomia do qual não abdicava. Talvez tivesse sido mais acertado escolher outros canais de comunicação que ajudassem a construir uma outra marca deste projeto editorial que, segundo escreve Charb, foi sempre sendo adulterado no espaço público (mediático). As explicações chegaram tarde demais. Fica o testamento para memória futura.