Opinião

Somos todos culpados!

A violência entre os jovens atinge hoje dimensões preocupantes, não sendo resolúvel somente a partir de um campo social. Família, comunidade escolar, políticos, produtores de conteúdos mediáticos são atores que podem (devem!) envolver-se na neutralização destes comportamentos. Que terão sempre repercussões sociais num futuro próximo.

A agressão de que foi vítima o jovem da Figueira da Foz por parte de um grupo de rapazes e raparigas da sua idade apenas mobilizou as autoridades públicas no momento em que o vídeo dessas ofensas foi divulgado pelo Facebook e se tornou viral. Entre o ato em si e o momento em que ganhou dimensão pública, passou um ano sem que nada tivesse acontecido. Nesse tempo, o rapaz violentado sofreu física e psicologicamente enquanto o grupo de jovens malfeitores continuou a sua vida. Há quem aconselhe a não visualização dessas imagens para não perpetuar o efeito do cyberbullying. Percebe-se que nenhum de nós tem o direito de estar ali, olhando passivamente o sofrimento dos outros. Mas também é verdade que, por vezes, precisamos de ver para agir. Para agir com determinação. Para agir energicamente.

Comecemos pela família. Já sabemos que hoje escasseia tempo para olhar devagar para a vida dos nossos filhos que vai fluindo na escola e nos (longos) intervalos que os atiram frequentemente para margens povoadas de comportamentos desviantes que alguns tentam fazer entrar na normalidade do dia a dia. É preciso, pois, que os pais ensinem os filhos a dizer não a certas práticas tribais e a indignarem-se com comportamentos que atentem contra a dignidade das pessoas. E a denunciarem sempre a violação dessas linhas vermelhas.

A escola é aqui um ator fulcral. Hoje os estabelecimentos de ensino devem ser locais de aprendizagem do saber, do saber fazer e, acima de tudo, do saber ser. A sala de aula não deve, de forma alguma, ser uma espécie de "bunker", impermeável àquilo que se passa para lá das suas paredes. É preciso que, em todos os graus de ensino, se privilegie a transmissão de valores e que isso seja feito em cruzamento com as atuais práticas juvenis. Um professor não pode ignorar que os mais novos vivem pendurados em periféricos móveis e que as suas redes societais são agora muito diferentes daqueles que existiam há uma década. Por isso, é urgentíssimo integrar esse mundo real na sala de aula, conduzindo os mais novos para práticas de cidadania que os unam uns com os outros de forma equilibrada.

É claro que o Ministério da Educação terá sempre um papel importante naquilo que as escolas (não) conseguem fazer. Para além de fomentar políticas da educação no sentido de fazer assimilar nos diferentes curricula conteúdos que ajudem os mais novos a orientarem-se melhor perante novas ameaças resultantes de evoluções tecnológicas e renovadas formas de socialização, quem tutela o ensino tem também a obrigação de ajudar os professores a atualizar conhecimentos e práticas educativas para que estes saibam ler melhor o Mundo.

Valorizando a denúncia de casos de violência, os média têm o poder de colocar em público uma acesa discussão em torno de certas temáticas, situando--as onde elas devem estar: fora da norma. A este nível, as redes sociais, ao tornarem virais certos tópicos, fazem crescer a indignação coletiva. E isso também é positivo. Mas há que ir mais além a fim de criar nos jovens um posicionamento firme contra comportamentos violentos e uma atração forte por atitudes de integração. Aqui, a música e a publicidade poderiam ser poderosos coadjuvantes. Que bom seria se conseguíssemos criar uma onda contra a violência que se tornasse uma moda entre os mais novos.

O jovem que foi agredido na Figueira da Foz não está isolado. Há mais jovens violentados em todo o país que ficam em silêncio perante os seus agressores. Estes, por seu lado, também são vítimas de um dia a dia que os atira para as margens. É preciso recentrar toda esta gente que anda em periferias que os tornarão adultos com comportamentos desviantes num futuro próximo. E a culpa não é deles.