Opinião

Tchau, querida! Será mesmo?

Tchau, querida! Será mesmo?

Quem ouviu ontem o discurso de Dilma Rousseff, depois de 55 senadores terem aprovado a abertura do processo de impeachment da presidente do Brasil, não acredita que Michel Temer terá vida fácil no Planalto. A "presidenta eleita" não se cansou de dizer que a sua destituição é um profundo e doloroso golpe contra o qual travará um duro combate político. Depois da dor da tortura, da dor da doença, eis a dor da injustiça que nenhum julgamento salvará. Apenas resta a solução ditada pelas urnas de voto.

Quem vive no estrangeiro interpreta o que se passa no Brasil com enorme incredulidade. Na Câmara dos Deputados e no Senado, os políticos têm feito discursos completamente inverosímeis, exibindo comportamentos pouco recomendáveis em tais órgãos de soberania. Na edição desta semana, a revista "Isto É" escrevia que Lula da Silva alcançou o "olimpo da bandidagem". Não será o único. A rua devolve-nos um país dividido entre um inamovível apoio e uma inflamada oposição ao PT. Seguindo os média brasileiros, encontra-se um registo jornalístico de musculado contrapoder a Dilma Rousseff e a Lula da Silva. Mesmo a revista "Carta" tem, por estes dias, dificuldade em assumir a defesa do Partido dos Trabalhadores, algo que fez com grande tenacidade nos últimos anos. É um facto que o Brasil atravessa hoje uma das suas fases mais duras. A todos os níveis. Político, económico, social...

Hoje, a suspensa presidente do Brasil prepara-se para o maior combate de sempre: provar a sua inocência num julgamento que será sempre mais político do que judicial. Curioso o processo ter essa natureza, quando o contexto do país é o de uma inequívoca judicialização da política. Ontem o site da "Folha de São Paulo" noticiava que Dilma está cansada. Quem ouviu o seu discurso não ficou com essa perceção. Dilma Roussef mostrou-se determinada em lutar pelo poder, colocando de lado as teses daqueles que garantiam que partiria rumo a Porto Alegre para reocupar o seu apartamento no bairro ironicamente chamado Tristeza.

Golpe ou não, eis que o PMDB chega novamente ao poder, sem conquistar esse lugar pela legitimidade das urnas. Tinha já sido assim depois da destituição de Fernando Collor de Melo, com Itamar Franco a tomar conta do Planalto por substituição. A história repete-se agora com Michel Temer e, tal como no passado, o novel presidente enfrenta uma grave crise económica que deve ser travada rapidamente. Temer tem seis meses para mostrar o que vale. É, decerto, pouco tempo para conseguir apresentar resultados. Ontem, o jornal "Folha de São Paulo" titulava que Temer alterara o Governo para dar prioridade ao comércio externo. É preciso, pois, concentrar a ação política na procura do investimento que trave um défice cada vez mais galopante. Para isso, todos sabem que é imperioso fazer ressuscitar a estabilidade, algo complexo num país tão agitado politicamente e tão debilitado do ponto de vista financeiro. Os brasileiros estão descrentes quanto ao presente e os investidores desconfiados em relação ao futuro. Temer não conseguirá fazer milagres. Mesmo tendo entrado no Planalto na sequência de uma votação confortável na Câmara dos Deputados e no Senado, o ex-vice presidente do Brasil sabe que o seu lugar lhe custou muitas conspirações de gabinete, alguns acordos públicos e um frágil apoio popular.

A partir de hoje, o Brasil entra numa nova fase. Na arena política, os próximos tempos serão de firme combate político que poderá restituir alguma ordem ou então afundar o país num incontrolável caos que apenas poderá ser revertido nas urnas. A segunda hipótese poderá parecer mais realista, mas o Brasil é totalmente imprevisível e surpreendente. Ontem, mesmo antes de tomar posse, Michel Temer anunciava que as suas prioridades seriam reduzir a dívida pública e reconquistar a confiança internacional. Seria um bom começo, se tivesse tido o cuidado de não falar como presidente antes de o ser formalmente. Pormenores... que contam muito.