Opinião

Temos tempo para os jovens?

Temos tempo para os jovens?

Hoje a escola vive asfixiada com a obrigação de cumprir programas e ser bem-sucedida em rankings que se medem pelas notas dos exames. Em casa, os pais acordam já atrasados para um emprego que lhes consome a maior parte do dia e chegam à noite para um jantar que há de ser dividido com a atenção centrada na TV. E aí estão as nossas crianças nesta corrida entre a casa e a escola, esgotadas por aprendizagens que pouco lhes dizem e acantonadas em lares que as comprimem numa solidão labiríntica. Por isso, não espanta que jogos como a Baleia Azul vinguem. E não adianta erguer barricadas. Porque mais à frente há de surgir outro programa mais assustador. Importaria, antes, refletir bem no que estamos a fazer aos nossos jovens.

A escola é, e será sempre, um lugar de aprendizagens. Diversificadas. Mas continua refém dos ditos "saberes sábios". É, sobretudo, isso que os exames avaliam, apresentando-se as classificações como um fator decisivo para a aclamação dos estabelecimentos escolares considerados de sucesso. Todavia, há uma outra dimensão da escola que se revela fulcral na construção de uma sociedade: a que transmite um saber que habilite os estudantes aos novos estilos de vida. Aí, as dificuldades aumentam. Porque não há tempo para falar daquilo que não será avaliado e porque os professores não têm competências para tratar certos assuntos. A este nível, o Ministério da Educação tem responsabilidades acrescidas.

A cada novo Governo, quem tutela a Educação tem sempre a enorme tentação de mexer na organização curricular ou na avaliação. Todavia, até hoje, ninguém foi capaz de revolucionar a tal ponto a escola que a convertesse num lugar onde se discuta e reinterprete a vida de todos os dias. Todavia, o que está fora da sala de aula não pode ser estranho às matérias que se estudam, nem pode ser acantonado numa disciplina menor, atirada para as margens de uma aprendizagem que se dispensaria com facilidade. É preciso que, em cada disciplina, haja espaço para construir pontes com o presente, mostrando outras extensões de uma vida que hoje se redimensiona em permanência. Neste contexto, as tecnologias assumem uma importância colossal. Não falo do campo tecnológico em si, mas daquilo que os múltiplos ecrãs abrem à frente dos olhares curiosos dos nossos jovens que tão solitários se sentem. É preciso que essas práticas sociais se incorporem naquilo que se aprende na escola e que sejam tratadas por professores com formação para isso. Há, portanto, muito para fazer.

Claro que a família não pode constituir-se como parte ausente desta equação. Em casa, todos nós percebemos a atenção que os periféricos móveis suscitam nos mais novos. Não deverá ser esse tempo uma oportunidade para os ver ocupados. Os pais têm o dever de se interessar pelos usos que os filhos fazem das tecnologias que manuseiam. Sem lhes atirar frases soltas de moralismos dispensáveis ou avisos que ninguém ouve. Ainda ontem, o "Jornal de Notícias" relatava que uma das jovens vítima do jogo Baleia Azul recebia mensagens no seu telemóvel entre a meia-noite e as 4 da manhã. Em casa, enquanto os pais dormiam. Claro que ninguém pode controlar caudais de informação perigosa que, a cada momento, pode chegar aos nossos filhos. Contudo, todos nós podemos ajudar a desconstruir esse tipo de conteúdos.

Nos últimos dias, o fenómeno Baleia Azul tem sido alvo de uma intensa cobertura mediática. Também arrastadas por essa pressão jornalística, as autoridades fizeram saber que podem bloquear o acesso informático a esse jogo. Soube-se igualmente que foram instaurados quatro inquéritos em diferentes zonas do país. Serão medidas de alcance pontual. Sem qualquer efeito a longo prazo. Agendando este caso e dando-lhe amplo destaque, os jornalistas cumpriram a sua função de alertar para comportamentos de risco que envolvem muitos jovens. E que permaneciam em zonas de silêncio. Agora é preciso agir. De forma ponderada e permanente, colocando-nos ao lado daqueles que, em frente de ecrãs móveis, podem viver um mortal pesadelo.

* PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA U.MINHO