Opinião

Tempo de antena no noticiário

Tempo de antena no noticiário

Não será uma novidade a promoção de conferências de Imprensa ou de declarações oficiais à hora dos noticiários televisivos das 20 horas. Ora, esta prática tem vindo a exacerbar-se, escorregando nas horas e na duração. E eis como de repente os telejornais se convertem em propaganda, os comentadores ficam sem espaço para uma reflexão ponderada e a Imprensa sem tempo para publicar peças com o distanciamento exigido. Os promotores dessas iniciativas vão aproveitando estas limitações em seu próprio benefício, ficando para os jornalistas a obrigação de travar este descarado assalto a um terreno que lhes compete defender, o da notícia.

Todos já perceberam que a mediatização daquilo que acontece estrutura o espaço público por onde todos circulamos. Ainda que o campo mediático seja hoje atravessado por profundas mutações, conquistando a comunicação digital um espaço cada vez maior, a televisão continua a ser hegemónica no agendamento das questões e dos atores que importa ter em conta. Por isso, existe uma enorme tentação para fazer entrar certos eventos nos alinhamentos dos noticiários de maior audiência. Em tempo de pré-campanha eleitoral, Governo e partidos políticos não terão grande dificuldade em criar pseudoacontecimentos cuidadosamente guardados para o horário do telejornal dos canais generalistas. Não são iniciativas inocentes estas que, no entanto, colocam grandes dificuldades ao respetivo tratamento jornalístico.

A estratégia é simples: anuncia-se o evento que se sabe que irá atrair grande atenção mediática para perto das 20 horas, colocando os repórteres de TV em sentido para um direto sobre aquilo que ainda não está a acontecer. O deliberado atraso produz noticiabilidade. Convém que o tempo vá escorregando para meio do noticiário, porque isso ajuda a cumprir três objetivos: garante-se a presença do evento no topo dos alinhamentos; assegura-se um direto mais longo na segunda parte dos telejornais que, por norma, está mais solta da pressão inicial; e subtrai-se tempo de reflexão aos comentadores que, a partir das 21 horas, na RTP2 ou nos canais temáticos de informação, analisam o que foi apresentado. Ora, como é fácil de perceber, sem pensamento devidamente ordenado e sem tempo para se inteirarem com rigor daquilo que foi dito, jornalistas e comentadores serão mais prolixos. O tempo de antena em formato jornalístico não poderia ser mais perfeito.

Não se espera que esta tendência se inverta a partir dos promotores de acontecimentos. As limitações que este tipo de diretos impõem aos jornalistas convertem-se em aspetos positivos para os respetivos protagonistas. Trasveste-se em notícia aquilo que não passa de propaganda. Ora, é exatamente isso que os jornalistas devem travar, podendo usar várias táticas.

Em primeiro lugar, as televisões devem selecionar para diretos acontecimentos verdadeiramente importantes. Depois, a ligação apenas deve acontecer quando o evento se inicia ou quando existe um elemento relevante para reportar, nunca devendo prolongar-se essa emissão por um tempo em que se mistura o que é notícia com aquilo que não passa de uma manipulação abusiva dos média noticiosos. Os debates que, entretanto, se criam devem também atender à importância dos acontecimentos, garantindo aos comentadores algum tempo de preparação para que se possa ir além das trivialidades.

Numa altura em que os jornalistas procuram ser os primeiros a anunciar a última coisa que acontece, a atração pelos diretos assenta bem em redações que vivem penduradas numa espécie de cronomentalidade em que o imediato se sobrepõe à importância dos factos que se relatam. É preciso, pois, travar esta esquizofrenia que, de quando em vez, afeta quem faz opções editoriais nos canais de TV. A Imprensa também deve tomar algumas precauções, recusando espaço para notícias e análise de acontecimentos de relevância discutível.

Não é bem informação que nos faz mais falta. Isso está em todo o lado. Precisamos mais de jornalismo que selecione o que importa saber e que junte a isso ângulos de análise que nos deem outro entendimento acerca daquilo que acontece.