Opinião

Tempo para o debate

Ao apresentar o seu projeto de programa de governo quatro meses antes das eleições legislativas, abrindo-o ao contributo dos cidadãos, o PS procura outro modo de percorrer este período de pré-campanha eleitoral.

No entanto, o mais importante está por fazer: encontrar formas eficazes de integrar essa participação e manter no espaço público um debate promotor de novas políticas, que não sirva apenas para garantir uma ampla cobertura mediática.

Os políticos não costumam atribuir importância aos cidadãos. Valorizam-nos, sobretudo, na qualidade de votantes. Em cada ciclo eleitoral, embarcam em cansativas caravanas, que correm apressadamente pelo país real, sempre demasiado concentrados nos jornalistas que os acompanham. Claro que as notícias que daí saem só podem refletir um universo autotélico que dificilmente suscitará o interesse do público, a não ser que este faça um intervalo na vida de todos os dias para se entreter com o anedótico... Todavia, aos poucos, os partidos começam a perceber que têm de fazer mais caminho em direção às pessoas a quem pedem o voto.

Anteontem, o PS optou por se antecipar aos restantes partidos, anunciando a proposta de programa eleitoral que apresentará a sufrágio. É claro que esta estratégia comporta riscos. O documento está mais tempo exposto ao escrutínio público e, consequentemente, mais vulnerável à descoberta de fragilidades; revela matéria de substância, proporcionando tempo para que os restantes partidos ostentem melhores propostas; fornece elementos que serão forçosamente colocados ao serviço de musculadas trocas verbais na luta partidária que, em período eleitoral, sempre se exacerbam. Tudo isto é inevitável e valerá a pena, se esta iniciativa procurar integrar sugestões oriundas da sociedade civil e preparar renovadas políticas públicas.

Em relação à participação dos cidadãos, os partidos têm aí um longo caminho a percorrer. Não basta colocar em linha um documento e abrir um canal de comunicação com aqueles que queiram dizer alguma coisa. Num país em que os políticos sempre viraram costas aos portugueses, é preciso repensar agora modos eficazes de dizer às pessoas que o seu contributo será tido em conta. O PS, ou qualquer outro partido, não pode criar estratégias direcionadas para a integração dos cidadãos nas políticas que vão sendo pensadas e, no seu dia a dia, fazer de conta que estes não existem.

Se a ideia é alterar práticas, essa mudança tem de ser concretizada a vários níveis. Por que não substituir alguns comícios por assembleias com cidadãos em que os políticos de primeira linha se disponibilizem para um debate sem guião prévio? Por que não trocar algumas arruadas por encontros efetivos com determinados grupos? Por que não comutar o ataque ao adversário por um discurso que fale da vida de todos os dias de pessoas comuns? Por que não transferir parte do investimento em tempos de antena para uma comunicação mais inovadora e efetiva no universo digital? Há tanto para fazer...

Em tempo de pré-campanha eleitoral, é positivo haver um partido com propostas concretas em relação àquilo que quer fazer e que manifeste uma diferente postura em relação aos eleitores. Ora, se é difícil perceber a evolução que as promessas políticas irão ter num futuro próximo, mais fácil de avaliar será o modo como cada partido vai gerindo a sua relação com os cidadãos. Aí poderá estar o ponto de viragem de um modo de fazer política que exige, entre nós, transformações profundas a fim de combater uma cidadania cada vez mais anestesiada para a coisa pública.

E se a ideia que começa a germinar é a de mudar práticas no sentido de uma maior responsabilização da classe política em relação à respetiva governação, este seria o tempo para os partidos reconhecerem a autonomia de outros campos, nomeadamente o do jornalismo. A alteração da Lei Eleitoral continua por concretizar e a cobertura jornalística da campanha eleitoral, feita de forma independente e com liberdade editorial, ainda não está garantida. Aqui está um bom ponto para começar a efetivar essa mudança.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO