Opinião

Ter um filho é uma ousadia

Ter um filho é uma ousadia

Portugal não é um país onde se fomenta a natalidade. Porque há poucas estruturas de apoio para quem tem filhos, as existentes não têm horários compatíveis com o nosso trabalho, as ajudas financeiras são escassas, o mercado laboral revela-se hostil a ritmos que procuram integrar rotinas familiares e, num sítio com poucas crianças, a compreensão em relação àqueles que fazem outra opção é escassa.

A notícia de que a evolução do número de nascimentos decresceu em 2017 face ao ano anterior não terá causado surpresa aos pais, particularmente àqueles com filhos ainda pequenos. Todos sentem que hoje ter filhos é um enorme desafio e exige um esforço permanente a vários níveis: financeiro, de organização de rotinas e de compatibilização da vida profissional com a vida pessoal. As despesas são substanciais, a alteração do quotidiano é radical e a evolução da carreira torna-se esgotante. Não deveria ser assim. Mas são estas canseiras que consomem em permanência quem decidiu ter um filho e assumir plenamente a condição de ser pai ou mãe. E ainda não desistir da sua carreira profissional. Um ousadia, portanto.

Na edição de ontem, o "Jornal de Notícias" destacava, em primeira página, o título de que "o interior resiste à queda da natalidade". Porque em regiões mais pequenas, a rede é maior. Os avós ou a família mais próxima constituem-se como uma âncora que ampara os horários dos infantários e da escola, nos jantares nos dias em que é necessário esticar mais o horário de trabalho, nas tarefas escolares que é preciso fazer no sossego de um lar... pouco disso existe em cidades maiores. Aí a família não está por perto, as instituições de educação não ficam ao virar da esquina e as despesas não param de crescer. Nestes contextos, junta-se ainda um ambiente profissional muito competitivo, e também deveras hostil, para quem tem obrigações familiares para cumprir.

Não é fácil pensar em políticas públicas que ajudem a inverter esta tendência. Haveria de se reforçar a rede do pré-escolar, dotar quem tem filhos de mais apoios na saúde e na educação e, muito importante, ajustar o calendário escolar e o ensino das nossas escolas a um tempo em que os ritmos familiares passaram por profundas alterações. Pais sem retaguarda de apoio e com vidas profissionais normais dificilmente conseguem organizar-se em função dos ritmos escolares diários e, mais grave ainda, sazonais. Há pausas trimestrais, férias de Natal, de Carnaval, da Páscoa e de verão que ultrapassam muitíssimo o tempo disponível dos pais que, assim, se veem obrigados a contratar uma pessoa que tome conta dos filhos, somando outra despesa a um orçamento familiar que muitas vezes não comporta nenhuma outra parcela. Assim, não é possível ter filhos.

No caso das mulheres, a maternidade impõe ainda a idade como um tempo com fronteiras definidas. Face à dificuldade em conseguir um emprego estável ou à vontade de consolidar uma carreira, muitas mulheres adiam um projeto que sabem ser central nas suas vidas. Vivendo cedo esta experiência, há que estar preparada para flutuações laborais que colocarão uma mãe numa situação periclitante; adiando a chegada dos filhos, haverá seguramente o confronto entre ser mãe e continuar a trabalhar a um ritmo intensivo, tendo sempre a consciência de que ninguém é capaz de fazer a quadratura do círculo. Porque podemos não ser muito produtivos no que fazemos, mas trabalhamos sempre muitas horas; podemos não tomar muitas decisões, mas prolongamos reuniões por um tempo impensável; podemos ser capazes de construir elaborados discursos sobre a importância da natalidade, mas na vida de todos os dias nada fazemos para simplificar rotinas profissionais que ajudem os pais a serem simplesmente pais.

Será sempre imponderada qualquer posição otimista em relação ao aumento da natalidade. Porque isso pressupõe gigantescas mudanças societais em diversos campos. E, acima de tudo, impõe uma nova forma de pensar os ciclos da vida. Para valorizar os mais novos, seria também desejável cuidar dos mais velhos. E nós não temos muito tempo para isso. Mesmo sabendo que está aí o essencial das nossas vidas.

* PROFESSOR ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO