Opinião

Todos em pré-campanha

Todos em pré-campanha

Ao devolver ao Governo o decreto-lei que previa a recuperação de 2 anos, 9 meses e 18 dias do tempo de serviço dos professores, o presidente da República não surpreendeu, mas causou um grande problema ao Executivo que se desenvolverá em três frentes: ministérios da Educação e das Finanças são agora obrigados a negociar com os temíveis sindicatos da Educação; partidos da Esquerda endurecerão as suas posições; e a população estudantil e respetivas famílias vão desesperar com as esperadas greves dos professores.

Por seu lado, Marcelo Rebelo de Sousa capitaliza popularidade e ergue mais um obstáculo à conquista da maioria absoluta por parte do PS. Quem disse que a pré-campanha eleitoral começou muito cedo...?

A decisão não constituiu uma opção isolada do Palácio de Belém, antes foi alavancada por uma maioria negativa que se formou na Assembleia da República (donde o PS se excluiu) que determinou ao Governo, através da Lei do Orçamento de Estado para 2019, a obrigação de continuar a negociar a recuperação do tempo de serviço dos professores. O presidente da República apenas aproveitou uma oportunidade para abrir uma brecha entre o poder central e a classe docente, o que, em ano de eleições, é sempre delicado. Marcelo Rebelo de Sousa sabe bem disso. E está apostado em não facilitar a vida a António Costa. A título de exemplo, vejamos o que aconteceu por estes dias.

Em pleno dia de Natal, o PR deixou uma mensagem clara para os leitores deste jornal e, por extensão, para o país: reconheceu que Portugal está melhor, mas que há ainda muito para fazer. Por isso, assegurou que este período se faz de sentimentos mistos: "de alívio para uns, luta por expectativas acalentadas para outros, preocupação para todos com o que vai chegando de fora de antevisões dos tempos que se avizinham". Dias antes, o PR já tinha feito esse ponto prévio acerca da realidade externa para conter euforias em torno do Orçamento do Estado para 2019. À noite, quando as televisões difundiram a tradicional mensagem de Natal do primeiro-ministro, os comentários políticos estavam já condicionados por uma leitura da realidade que o presidente impôs logo pela manhã.

O dia 25 de dezembro preencheu-se ainda com um almoço com a comunidade emigrante portuguesa que decorreu em Estarreja e com uma visita à Ala Pediátrica do Centro Hospitalar Universitário de São João. Porque é preciso estar perto de pessoas, particularmente em situações mais difíceis. Todavia, Marcelo também não descura os momentos mais festivos. Por isso, antes da consoada, meteu-se no seu carro particular e lá foi a conduzir até ao Barreiro para participar na tradicional festa da ginjinha e mergulhar aí num mar de afetos.

Na mensagem que publicou no "Jornal de Notícias", o presidente chamava a atenção para o facto de vivermos hoje um tempo precoce de pré-campanha eleitoral. Tem razão. Estamos a cinco meses das eleições europeias e a menos de dez meses das legislativas. Os partidos sabem que, a partir de agora, todos os gestos contam. O Governo também está consciente de que a sua ação política será agora julgada de modo diferente. Em Belém, Marcelo vai observando tudo com atenção. Por isso, serão bem-vindos todos os casos disruptivos em relação à ação governativa. Como o dos professores. Que abrange um grande número de profissionais, afeta milhares de famílias e, consequentemente, tem um enorme impacto mediático. Não é, todavia, claro que Marcelo esteja certo na sua avaliação, já que a perceção da generalidade do eleitorado pode não reconhecer a razão por parte dos professores, não penalizando assim o Governo no ato eleitoral.

No passado sábado, o presidente dizia no "Expresso" que "gostaria de ter um ano calmo, mas vai ser difícil...". Ora isso até poderá ser positivo para si, porque Marcelo não gostaria de cumprir um segundo mandato num contexto político de maioria absoluta. Porque isso lhe retiraria o poder que tanto gosta de chamar a si.

Professora Associada com Agregação da Universidade do Minho