Opinião

Trump, o anticandidato

Trump, o anticandidato

Nunca houve umas eleições assim nos EUA. Porque também nunca houve um candidato como Donald Trump. Era nestes termos que a penúltima edição da revista "Time" falava da atual campanha eleitoral. Ontem, depois do terceiro debate presidencial, os média norte-americanos eram unânimes em condenar o candidato republicano pela sua ambiguidade quanto à aceitação dos resultados eleitorais. Em editorial, "The Washington Post" censurava o repúdio que tais palavras manifestavam para com a democracia.

Foi a frase que escolheu como eventual trunfo para o seu último debate com Hillary Clinton que mais terá afundado Donald Trump. Perante a pergunta se iria aceitar os resultados eleitorais, respondeu: "Vou deixar-vos em suspenso". Não se tratou nem de um lapso, nem de uma resposta imponderada. Há vários dias que Trump vem lançando suspeições sobre a fiabilidade destas eleições e essa estratégia, que alguns analistas leem como uma antecipação da sua derrota, está a provocar-lhe um enorme desgaste. Mais do que atacar a sua adversária, o candidato republicano descredibiliza as instituições norte-americanas e exibe um vigoroso ceticismo em relação aos processos democráticos. Um sacrilégio em terreno americano que os média trataram de avolumar, assegurando que este candidato constitui um perigo para o futuro do país. No início dos anos 90, Karl Popper e John Condry falavam assim da televisão, mas não foram os média que mais acossaram Trump. Foi ele próprio. A sua maneira de ser, as suas ideias, as suas declarações, o seu comportamento. Tudo nele é excessivo e mau para uma ideia de democracia estruturada pela inclusão, tolerância e diversidade, valores que este inesperado candidato desconhece.

Quem comprar esta semana a versão digital da "Time" encontra uma capa dinâmica onde se veem os contornos do rosto de Trump a derreterem até à respetiva indefinição, sob o título "Colapso total". No interior, um longo texto interroga o que restará da política americana depois do dia 8 de novembro. "Trump reduziu a sua campanha a um grunhido primitivo", escreve-se. A revista "The Economist" também se opõe de forma musculada a Trump e aos respetivos apoiantes que, neste tempo, fizeram periclitar permanentemente "as regras não escritas das democracias saudáveis". O registo crítico é cáustico: "quando os pais se perguntam se é adequado deixar os seus filhos assistirem a um debate com Trump, a proposta para a construção de um muro com o México já não parece tão chocante".

Olhando para os média impressos publicados nos EUA, tenho uma preferência pela capa desta semana da revista "Week" na sua versão norte-americana. Num mar azul algo solitário, vê-se, na linha do horizonte, um grande navio a afundar-se e, num plano mais aproximado, um pequeno barco salva-vidas a abarrotar de aterrorizados elefantes (animal que é uma espécie de mascote dos republicanos) que tentam a todo custo chegar a terra firme. Eis a metáfora perfeita daquilo que é hoje a caravana de Donald Trump. Sem nomes de referência (o clã Bush já fez saber que não gosta dele), com menos ajudas financeiras (os dadores mais conceituados desistiram dos apoios), com um número decrescente de voluntários no terreno e com muitos candidatos republicanos a demarcarem-se de um candidato que acreditam ser perdedor (o líder do partido no Congresso Paul Ryan já fez saber que não iria mais aparecer nos comícios). Mais do que salvar Trump, o Partido Republicano quer salvar-se a si mesmo e, se possível, preservar a maioria dos votos que tem na Câmara dos Representantes e que lhe permite algum protagonismo na governação norte-americana. Será difícil.

Poder-se-ia aqui dizer que Donald Trump é apenas um fenómeno pontual. Não é assim tão simples, porque a ação deste homem não é inócua. A começar pelo Partido Republicano, que terá pela frente uma gigantesca tarefa de reconstrução da sua identidade. Também Hillary Clinton não ficará imune às frases que lhe dirigiu, nomeadamente aquela em que lhe disse que deveria estar presa. Mas o mais grave será "o efeito Trump" no seio da própria democracia norte-americana, principalmente se se concretizar a perigosa intenção de criar um canal de TV.

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO