Opinião

Trump: o pior está para vir?

Trump: o pior está para vir?

Sem surpresa, a "Time" escolheu o presidente eleito dos EUA para a personalidade do ano. Do ponto de vista mediático, o destaque que acumulou foi maioritariamente negativo. Percorrendo as capas que o então candidato republicano à Casa Branca protagonizou em 2016, ressaltam retratos negros acerca de alguém que poucos acreditavam ser capaz de presidir àquilo a que a revista chama agora os Estados divididos da América. A crítica não poderia ser mais contundente.

Em 2015, a personalidade do ano foi Angela Merkel. No ano anterior, tinham sido os voluntários do ébola. Em 2013, o escolhido foi o Papa Francisco; e, em 2012, Barack Obama. É claro que da lista dos escolhidos constam nomes mais controversos, como os de Adolf Hitler (1938) ou Josef Stalin (1939). No entanto, de uma forma geral, os eleitos são encontrados numa noticiabilidade algo equilibrada. Ora, não foi em ângulos positivos que a personalidade deste ano foi descoberta. Pelo contrário. Alvo de uma intensa cobertura mediática muito crítica do seu desempenho, Trump sobressaiu numa construção jornalística corrosiva em relação a si e demasiado cética quanto às suas reais capacidades em derrotar Hillary Clinton. A revista "Time" integra-se nesta tendência global dos media noticiosos. Porque, desde o início, nunca acreditou que este homem liderasse uma corrida à Casa Branca.

A primeira capa de 2016 aparece, na edição de 18 de janeiro, a preto e branco, expondo um candidato de costas para os leitores e virado para uma copiosa assistência de gente envelhecida que olhava, petrificada, alguém de gesto exuberante. No texto que suporta o destaque, o jornalista fala de um "narcisista, sem fidelidade partidária, somando já três casamentos". Alguém desaconselhável, claro está. No entanto, o discurso jornalístico sublinha algo talvez inexplicável por interpretações dominantes que há muito paralisaram o sentido crítico dos media: estava ali um candidato que, sob temperaturas gélidas, arrastava multidões. E isso deveria ser ponderado. Nunca o foi.

Trump haveria de regressar às capas da "Time" a 14 de março. Novamente a preto e branco. Desta vez, a publicação crava em cima da sua foto ásperos epítetos: fanfarrão, demagogo, destruidor do Partido Republicano. Apenas faltaria saber se estes traços esmoreceriam para tornar possível a sua eleição. Percorrendo as doze páginas de reportagem, ressalta a ideia de uma colossal improbabilidade de tal acontecer. Aí está como os media vão contornando dificuldades para fazer acreditar que a (sua) ordem não corre o risco de periclitar. Quatro meses depois, a 25 de julho, Donald Trump ressurgiria. Desta vez, a cores, mas novamente de costas. A respetiva peça intitula-se "o que um presidente deveria saber". Eram de fácil leitura as entrelinhas desta opção jornalística que apresenta Trump como um homem intuitivo. Qualidade, decerto, boa no mundo dos negócios, mas de grande periculosidade no campo político.

A 24 de outubro, a "Time" opta por indefinir o rosto de Trump sobre o título "colapso total". Escreve-se que está em vias de perder a corrida, caracterizando-se a sua campanha como "um grunhido primitivo". Assim, quando na semana anterior às eleições se colocam em capa Clinton e Trump com um cartaz na mão onde se lia que "o fim está perto", todos sabiam que a frase comportava duas semânticas, conforme os candidatos em causa. Tudo poderia ter sido diferente, se os media não tivessem feito uma leitura errada de um real que, posteriormente ao escrutínio, todos perceberam ser muito diverso dos relatos e comentários recorrentemente construídos.

Confrontado com a notícia da escolha da "Time", Donald Trump mostrou-se feliz e deixou-se fotografar em sua casa para a capa que o anuncia como a personalidade de 2016. Na nota explicativa desta escolha, a diretora da "Time" escreve que este prémio também se destina "a moldar a política do amanhã, demolindo a que se fez ontem". Ora, não será tarefa fácil apagar o que tem dito Trump nestes meses, mas a pergunta mais temível está em aberto: será que o pior está ainda para vir?

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO