Opinião

Tudo em aberto na campanha

Tudo em aberto na campanha

Um debate político não se constitui como uma espécie de bala mágica que altera automaticamente o comportamento dos eleitores, mas reúne em si uma grande potencialidade: ajuda a criar uma onda a favor de um candidato. O duelo de quarta-feira à noite abriu essa via a António Costa. Mas nada está decidido. Há uma campanha pela frente. Que vai ser decisiva.

Pedro Passos Coelho surgiu no Museu da Eletricidade algo descontraído. Mais do que o presidente do PSD, via-se ali um primeiro-ministro que se dispusera a ceder uns minutos da sua carregada agenda a um líder da Oposição sedento de um ringue. O combate parecia ganho à partida, parecendo ser suficiente acenar com um passado recente que se revelou salvífico para garantir um futuro mais promissor. Eis o primeiro e principal erro de Passos Coelho.

António Costa chegou tenso. Normal, quando se sabe que a sobrevivência depende de um confronto que há muito se reclamava. Nos primeiros minutos, os nervos iam traindo a força dos argumentos que o secretário-geral do PS tão bem preparara em casa. No entanto, à medida que a conversa avançava a sua descontração ajudou-o a atirar algumas vezes o adversário ao tapete. E isso foi-lhe dando confiança necessária para o ataque.

É claro que quem seguiu a emissão à procura de perceber o que ambos pretendem para o país ficou defraudado. Os debates em televisão não são momentos explicativos. São palcos onde cada um ensaia o poder em cena. Vence o mais habilidoso nos argumentos e o mais tático nas trocas verbais. O formato deste debate impunha um tempo mais reduzido de resposta. Passos e Costa não se adaptaram à exigência. São políticos de outro tempo. Políticos da era do papel, como bem demonstrou António Costa na sua certeira estratégia de se munir de documentos escritos para mostrar as contradições de um primeiro-ministro para quem o passado recente parecia chegar para reclamar uma continuidade no próximo Governo. É certo que Passos ainda tentou assegurar que pertencia à era digital, mas o pouco uso que fez do iPad que jazeu na

sua mesa foi suficiente para se perceber que esse salto está por dar.

A pairar sobre o debate esteve sempre José Sócrates. Haveria de aparecer devagarinho pela mão de Pedro Passos Coelho. Primeiro em jeito de pergunta retórica e por intermédia pessoa: "Sabe quem chamou a assistência externa para Portugal? Foi o ministro das Finanças do anterior Governo". Depois, de forma explícita. E reiterada. Costa conseguiu tirar o ex-primeiro ministro da conversa com mestria, perguntando ao seu interlocutor se sentia saudades daquele que o PSD considera um tiro certeiro para impedir o PS de chegar ao poder.

O debate terá permitido a Passos perceber que a cartada Sócrates é perigosa. Porque pode fazer ricochete na coligação. Talvez seja melhor ir por outro caminho e deixar esta variável à solta. Sócrates é imprevisível e só ele poderá, na verdade, provocar efeitos indesejáveis no Partido Socialista.

Passos saiu enervado do "estúdio". Compreendeu bem que Costa ganhou ali terreno. E que esse espaço seria alargado nos comentários que os media e as redes sociais multiplicariam em diversas plataformas. É isso que vai construindo uma onda favorável a um candidato. No entanto, as eleições não se ganham (apenas) nos palcos mediáticos, nem tão-pouco os resultados são antecipados por sondagens que se vêm revelando cada vez mais falíveis. A vitória desenha-se no terreno. Por isso, os próximos dias serão decisivos.

Com os resultados em aberto, estas eleições legislativas serão as mais disputadas dos últimos anos. E isso dotará a campanha eleitoral de um indiscutível interesse. Resta saber se as máquinas partidárias estão bem preparadas para este duro combate. Se os políticos que temos são de outro tempo, este não é o tempo para viver voltado para o passado. É tempo de centrar toda a atenção no futuro. E abrir uma janela de esperança para os portugueses. Que estão cansados dos velhos discursos.