Opinião

Um doente pode tratar de si?

Um doente pode tratar de si?

O Ministério da Saúde quer utentes mais autónomos, mais participativos, mais conscientes das opções que encontram no Serviço Nacional de Saúde. Há até um grupo de trabalho para ajudar a desenvolver competências a esse nível, que irá apresentar algumas propostas na próxima semana. Não é propriamente uma novidade esta aposta no "civic engagement", mas é necessário perceber que este novo ambiente de participação exige uma interação mais efetiva com os doentes, serviços mais ágeis e uma outra forma de comunicar a saúde.

Quem estuda a saúde a partir do campo das ciências sociais há muito que se habituou a falar de "civic engagement" ou "public engagement". Esta participação dos cidadãos tem vindo a alargar-se progressivamente a domínios mais densos, como os da investigação médica ou das decisões clínicas. Poder-se-ia considerar que tal envolvimento transporta inegáveis riscos, mas há também que levar em conta um elemento vulnerável de uma colossal importância que é o direito de cada um a decidir sobre a própria vida, ainda que a maior parte das vezes não se possua conhecimento para avaliar em profundidade aquilo que está em causa.

É neste novo quadro social que deve ser (bem) acolhida a iniciativa do Ministério da Saúde para motivar os doentes a colaborar no seu plano de saúde. Num primeiro momento, esta vontade pode até parecer irónica, face às deficiências estruturais que subsistem no nosso Serviço Nacional de Saúde. Mas não é para o risível que a promoção da autonomia do doente deve remeter. Antes deve obrigar a repensar urgentemente certas possibilidades práticas de ação que vão paralisando os serviços públicos de saúde.

Há dias, num encontro com profissionais da saúde, um dos médicos participantes lembrava que atualmente os seus colegas não olham para os doentes. Olham para os computadores que têm nos consultórios e onde registam informação importante e outra certamente supérflua. Também não conversam com os pacientes. Ouvem e prescrevem. Depressa. Para fazer render o tempo. E sem muitas explicações. Este é hoje um dos problemas mais graves do nosso sistema de saúde, porque adensa a dificuldade que os doentes têm em perceber o seu estado clínico.

As estruturas de saúde também serão um elemento não despiciendo. Este grupo que está a trabalhar em reformas de proximidade propõe a qualificação dos espaços, mas, antes de cuidar da forma, é necessário simplificar processos, desbloquear canais de diálogo entre serviços e reformular recursos destacados para certos serviços. Todos nós conhecemos o labirinto que é preciso percorrer no SNS para aceder a uma consulta de determinada especialidade ou para marcar uma intervenção cirúrgica. Como conduzir um plano próprio de saúde, quando os serviços são de tal forma entrópicos que nos fossilizam logo no primeiro balcão de atendimento?

Uma das medidas a anunciar será uma biblioteca digital no portal do SNS com informação diversificada, acessível e atual. Excelente, mas também seria imperioso cuidar (mais) da informação que vai sendo disponibilizada aos meios de Comunicação Social, que são, recorde-se, um dos principais meios de informação sobre a saúde para a maior parte dos cidadãos. Não é preciso fazer um trabalho aturado de análise aos conteúdos jornalísticos produzidos para se perceber que há temas de que não se fala, interlocutores que não se ouvem e abordagens que não se fazem... Culpa dos jornalistas? Talvez, mas, acima de tudo, dos responsáveis da saúde que, nestes anos, não encorajaram novas tematizações, não posicionaram outros interlocutores para se constituírem como fonte de informação, nem tão pouco se esforçaram por criar outros "frames" para os tópicos mais retratados.

Nos próximos dias, ouviremos falar mais da importância da participação do cidadão na sua saúde, mas isso só se tornará possível com atores da saúde mais dialogantes com os seus doentes, com serviços mais ágeis e com uma informação diversificada e acessível a todos nas plataformas de grande consumo... Nenhuma reforma de proximidade deste tipo vingará sem ter em conta aquilo que (não) sabem os utentes do Serviço Nacional de Saúde. E é pela construção dessa base de conhecimento que tudo deverá começar.

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO