Opinião

Um lugar ao sol

O hábito já se enraizava em alguns hotéis. Agora estende-se a determinados areais. Estender manhã cedo uma toalha numa das espreguiçadeiras da piscina ou abrir um guarda-sol na areia a fim de reservar um lugar que é ocupado apenas uma pequena parte do dia não é somente irritante para quem é incapaz de tão egoístico gesto. É revelador daquilo que somos. Pessoas autocentradas no seu bem-estar, nem que isso implique neutralizar o que os outros possam fazer. Um comportamento que não acontece apenas nas férias de verão. Pode tornar-se bem visível nos restantes meses do ano.

Não há forma de neutralizar este tipo de conduta. Alguns hotéis ensaiam fórmulas dissuasoras de tais práticas, como obrigar à entrega das toalhas ao final do dia ou lavar as piscinas manhã cedo. Mas há sempre um modo de contornar estes benignos obstáculos. A marcação faz-se com toalhas próprias ou com objetos resistentes à água. E eis que chegados à piscina de um hotel ao final da manhã ou ao início da tarde e procurar um cadeirão livre se revela um verdadeiro dédalo. Os empregados tentam improvisar soluções e nós lá nos vemos acantonados em lugares pouco abrigados do sol ou despidos da privacidade que gostaríamos de ter. E quando finalmente nos deitamos e olhamos à volta, será difícil conter a irritação: boa parte das cadeiras tem toalhas, mas não está ninguém aí e muitas permanecem vazias por longas horas. A reserva faz-se de manhã cedo e, com frequência, esse lugar somente será ocupado lá para o final da tarde. Porque de manhã o tempo é de praia; e o início da tarde, de sesta. Será possível? É. E os autores de tais práticas, portugueses e estrangeiros, não se envergonham disso. Pelo contrário.

No passado sábado, o JN publicava um artigo que intitulava "Moda de reservar lugar na praia alastra pela costa". No texto, os veraneantes fundamentavam o seu comportamento devido ao aumento das zonas de concessões. Não se trata de uma explicação que justifique tais atos que atualmente parecem estar mais enraizados nas praias mais movimentadas do Algarve. É lamentável.

Num interessante livro, intitulado "Cegueira moral: a perda da sensibilidade na modernidade líquida", em que Zygmunt Bauman dialoga com o filósofo lituânio Leonidas Donskis, encontramos algumas pistas para ler melhor estas ilhas narcísicas com que nos confrontamos, mesmo em tempo de lazer e no meio de desconhecidos. Os autores falam de uma insensibilidade moral que se torna em nós uma condição quase permanente. E que nos empurra para certos estilos de vida e nos impulsiona a protagonizar determinados gestos. Há uma "negligência moral que cresce em alcance e intensidade", declaram os autores.

E isso vê-se com muita regularidade. Nos carros que avançam velozmente nas bermas das autoestradas, quando o trânsito se interrompe; nas pessoas que "distraidamente" se intrometem perto das bilheteiras, deixando para trás muitas outras que esperam a sua vez; nos tickets prioritários que se reivindicam, sem para isso ter qualquer legitimidade... E também se pressente nos mais variados ambientes que habitamos. No local de trabalho, todos conhecemos formas habilidosas de subir na carreira, subtraindo oportunidades a quem tem de facto valor de mercado. Nas relações interpessoais, há sempre modos rebuscados de mostrar em zonas de fachada determinadas reações e construir outras bem ardilosas em zonas de bastidores...

Grande parte de nós estará a meio das suas férias. Que este seja um tempo de descanso e de alguma tolerância para o homem sem qualidades desta pós-modernidade aqui e ali algo descontrolada. Por estes dias, regresso a um livro já com uns cinco anos e de leitura rápida. "O caminho da esperança", de Stéphane Hessel e de Edgar Morin. A fechar a obra, salientam-se estas sábias notas: "a vontade de viver alimenta o bem-viver e o bem-viver alimenta a vontade de viver. Ambos, juntos, abrem o caminho da esperança". Aquilo que nos distrai deste caminho valerá muito pouco.

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO