Opinião

Um momento para lamentar

Um momento para lamentar

Há uma semana, a Comissão Parlamentar de Educação e Ciência aprovou a recuperação integral do tempo de serviço dos professores e abriu a maior crise política desta legislatura.

Para lá da análise das posições do primeiro-ministro e dos líderes partidários, há uma imagem que convém guardar: a dos deputados encavalitados uns nos outros a rascunharem, num ambiente de visível atrapalhação, a versão destinada a ser votada em plenário. Ali estava o país político, ao qual conferimos um colossal poder, a gerir a nossa vida de forma desastrada, anacrónica, impreparada e inconsequente.

A notícia parecia surgir de forma inesperada: afinal o Parlamento iria satisfazer a pretensão dos sindicatos dos professores que reivindicam como contagem de tempo de serviço 9 anos, 4 meses e 2 dias. A surpresa acentuava-se pela súbita ameaça de António Costa que antecipava a demissão do Governo no caso do diploma ser aprovado na votação final. No entanto, ao longo destes dias, mais do que acompanhar as sucessivas mudanças de posição dos partidos de Direita, fiquei presa às imagens que mostravam a sala onde decorriam os trabalhos da Comissão de Educação e Ciência no momento em que se formava uma coligação negativa que amalgamava PCP, BE, PSD e CDS, partidos desavindos que selavam ali uma relação improvável. E de curta duração.

A um canto, parlamentares socialistas permaneciam sentados, boquiabertos perante o que se passava. Noutra mesa, deputados em pé inclinavam-se perante outros que, sentados, se agarravam a aflitas canetas, escrevendo e emendando um texto de difícil desenvolvimento. Não se via computadores. Apenas folhas de papel que circulavam irresponsavelmente de mão em mão. Num tempo em que se procura desmaterializar processos, principalmente nas entidades públicas, os representantes da nação preparavam uma decisão histórica rabiscando papéis, parecendo distantes da realidade digital que permite partilhar textos em rede e cruzar informação de contexto.

A sofreguidão por protagonizar uma deliberação algo populista junto dos professores era percetível. Lado a lado, estavam políticos de uma Direita que BE, PCP e PEV tanto censuraram pelas políticas de austeridade e políticos de Esquerda que PSD e CDS não têm tolerado ao longo desta legislatura. Essa união fazia-se em terreno de política orçamental, algo que se tornava ali possível, mas que era deveras inverosímil... Parece que nada do que ali ficou acordado terá luz verde em plenário, mas ninguém esquecerá o momento parlamentar.

* Professora associada com agregação da UMinho