O Jogo ao Vivo

Opinião

Um país (i)mobilizado nas bombas de combustível

Um país (i)mobilizado nas bombas de combustível

A greve dos motoristas de matérias perigosas começou na segunda-feira, mas o país só despertou para isso na terça-feira. Porquê? Porque os media resolveram criar múltiplos pontos de reportagem em bombas de abastecimento de combustível, mobilizando para lá filas intermináveis de agitados carros.

Os noticiários da hora de almoço de segunda-feira abriram com as reivindicações de motoristas a reclamarem a valorização da sua profissão, mas rapidamente os alinhamentos evoluíram para outros assuntos, sem tempo para se adensar grande polémica. A meio da tarde, o incêndio da catedral de Notre-Dame tomava conta da atualidade noticiosa e o país adormeceu com os depósitos de combustível tranquilos.

No dia seguinte, a agitação começou a aumentar. A meio da tarde, os canais de notícias já não falavam noutra coisa: o país estava à míngua de combustível. Ou, pelo menos, ameaçava estar. Serão, decerto, duas constatações diferentes, mas ali não importaria minudências que procuram a verdade do que está a acontecer. As redes sociais iam promovendo uma espécie de psicanálise coletiva, partilhada por um país em aflição junto a postos de combustíveis. Em apontamentos de reportagem, grupos de pressão exigiam ser considerados prioritários; alguns, mais alarmistas, iam vaticinando falta de medicamentos e de bens básicos... A sul, garantia-se uma crise no turismo. De repente, parecia instalar-se um ambiente de guerra civil.

Procurando âncoras para uma leitura ponderada daquilo que estava a acontecer, sintonizo na noite de quarta-feira os noticiários televisivos. Em rodapé, noticia-se a morte de mais de vinte pessoas num acidente rodoviário. Por momentos, pensei que tudo tinha acontecido no estrangeiro, dado o noticiário dos diferentes canais estar há largos minutos com reportagem em bombas de combustível. A tragédia tinha acontecido na Madeira.

Depois de uma intervenção política, o problema dos motoristas resolveu-se, em parte, na noite de quarta-feira, permitindo que o fim da greve fosse anunciado ontem. Afinal, Portugal não colapsou. Nos próximos dias, as bombas vão sentir alguma desaceleração nos abastecimentos, porque há um país com os depósitos dos carros cheios. Dever-se-ia ter minimizado estes protestos? Claro que não! Há que ouvir com atenção o que os motoristas nos têm a dizer. Já não se poderá dizer o mesmo dos automobilistas que se (i)mobilizaram por estes dias junto das bombas de combustível numa histeria coletiva que os media ajudaram a promover.

* Prof. Associada com Agregação na UMinho