Opinião

Uma campanha triste

Não há alegria nas candidaturas. Não há entusiasmo nas ruas. A caravana arrasta-se penosamente por um país anestesiado para a importância da política. Os candidatos insistem em assegurar que não são políticos. São "independentes" à procura de causas. Mas é exatamente isso que não se consegue descobrir: as causas por que correm. Falta uma semana para as eleições e não se discutiu o essencial, ou seja, o programa de cada um.

Ainda não é desta vez que se conseguiu renovar uma campanha eleitoral. Nem as ações, nem a respetiva cobertura. É certo que as máquinas partidárias são agora quase impercetíveis, mas isso seria apenas o início da mudança. As candidaturas imobilizaram-se aí, sem, no entanto, conseguir expurgarem-se totalmente dos partidos. Aqui e ali, lá surge um notável militante numa entrevista, num jantar ou numa visita para malhar nos adversários e para ajudar a passar a mensagem que está ali a melhor proposta para Portugal. Exceção para Marisa Matias e para Edgar Silva que, não renegando a ligação que mantêm aos respetivos partidos, procuram capitalizar a empatia que Jerónimo de Sousa ou Catarina Martins reúnem em ações de proximidade com o eleitorado.

Sendo mais ou menos eficazes em fingir que não precisam do apoio dos partidos, os candidatos estão no terreno em solitárias ações de campanha. Valem-lhes os jornalistas como companhia. E eis que todos os dias lá vamos observando nos média uma estranha tribo que procura evitar a rua para ocultar a visível falta de entusiasmo em torno de si. Os ambientes por onde circulam as caravanas são sempre muito controlados. Uma fábrica, um restaurante, um lar ou um hospital são lugares ideais para as televisões captarem ângulos que ajudam a construir uma estória de união em torno de uma candidatura. Que não existe. Poder-se-ia aqui dizer que o frio não ajudará a mobilizar cidadãos. Desculpas. Veja-se o caso dos Estados Unidos onde, debaixo de gélidas temperaturas, milhares de simpatizantes do polémico candidatado republicano Donald Trump fazem longas filas para entrar em participativos comícios que se replicam um pouco por todo o lado.

Em termos de estratégias discursivas, a aposta divide-se entre o ataque aos opositores e a demonstração de uma certa solidariedade em relação àquilo que se testemunha. É pouco para uma campanha em movimento. Percorrendo todas as candidaturas, nenhuma ensaiou, até agora, um discurso inovador para um tempo que se quer outro. Não chega renegar a herança de Cavaco Silva. É preciso demonstrar que se é capaz de fazer diferente e, acima de tudo, que existe uma ideia reformadora para a Presidência da República. Ainda há tempo para falar disso.

Algo que impressiona muito quando se olha esta campanha pelas televisões é a ausência de jovens. É certo que o afastamento das máquinas partidárias retirou as jotas das caravanas e isso subtraiu a juventude que costumávamos ver ao lado dos candidatos. No entanto, não está aí a explicação para as imagens carregadas de gente idosa que faz o dia a dia da campanha. Poder-se-á afirmar que os itinerários pensados não ajudam a rejuvenescer os cenários. Passar os dias em lares ou hospitais não traz gente nova para perto dos candidatos, mas a pergunta que se impõe é a da sua verdadeira capacidade para atrair os mais novos para junto de si...

Vivendo num novo ecossistema informativo, as candidaturas tinham obrigação de pensar de outro modo a comunicação. A que fazem em suportes tradicionais e a que promovem em novas plataformas. Nenhuma passou por uma renovação. Fala-se com os jornalistas que integram a caravana do mesmo modo como se fazia há 20 anos, desconsiderando que as empresas jornalísticas funcionam hoje num novo paradigma. No que diz respeito ao universo digital, há quem ignore que grande parte da comunicação passa hoje por aí e quem lhe conceda um pálido interesse, descentralizando daí a sua aposta.

Falta uma semana para as eleições. Se não houver rápidas e profundas alterações nesta campanha tão triste, não é preciso grandes interpretações para os altos índices de abstenção que certamente vão ocorrer. A leitura disso será linear.