Opinião

Uma greve que não serve os motoristas

Uma greve que não serve os motoristas

Ao contrário do que pretendiam, os motoristas de matérias perigosas não paralisaram o país, não souberam colocar a opinião pública do seu lado, não beliscaram o Governo e falharam na tentativa de trazer os patrões para a mesa das negociações. O que ganharam, então? Até agora, nada. Apenas ajudaram os média noticiosos a preencher a difícil agenda de agosto e revelaram a letargia da oposição em tempo pré-eleitoral.

Anunciada com bastante antecedência, a greve, decretada pelo Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas e pelo Sindicato Independente dos Motoristas de Mercadorias, aos quais também se associou o Sindicato dos Trabalhadores de Transportes Rodoviários e Urbanos do Norte, permitiu que o Governo se preparasse de forma transversal, subtraindo força aos grevistas. Que parecem estar sozinhos numa luta que terá a sua legitimidade, mas que se revelou incompreensível no modo como foi pensada.

Centremo-nos no calendário. Se os motoristas consideraram que a transição de quinzena do tradicional mês de férias seria uma boa altura para provocar danos ao país, enganaram-se. Nas cidades, as instituições públicas e as empresas abrandam a sua atividade e a circulação de carros diminui drasticamente. É claro que existe pressão em zonas balneares, mas aí o problema está circunscrito ao controlo dos postos de abastecimento a sul, algo não muito complicado, quando se decretam serviços mínimos.

Falemos dos patrões. Ao anunciar que não existem negociações em tempo de greve, a Antram deixou, neste ponto, os grevistas a falar sozinhos. Anteontem, os sindicatos envolvidos nesta luta convocaram os patrões para uma reunião, uma iniciativa algo inábil e com uma resposta já esperada: não se negoceia com uma espada sobre a cabeça.

Num contexto pouco favorável aos grevistas, o Governo tem sobressaído com uma estratégia de comunicação hábil, passando a mensagem de que há um trabalho em curso para salvaguardar os valores e princípios do Estado de direito democrático. Em contraponto, a oposição não tem conseguido reagir. A Direita está refém dos interesses dos patrões e a Esquerda, principalmente o PCP, terá dificuldade em se colocar do lado dos grevistas, quando a Fectrans, afeta à CGTP, se afastou desta iniciativa.

Nos média, as reivindicações criaram uma onda noticiosa que pouco serve os interesses dos motoristas, liderados por um advogado que nunca foi camionista. Mas ajudam a construir alinhamentos que, em agosto, são sempre difíceis de preencher.

Ontem, os motoristas continuavam a insistir numa greve por tempo indeterminado. Que será difícil de aguentar, quando não há uma estratégia de fundo, reparadora de todos estes danos.

*Prof. associada com agregação da UMinho