Opinião

Uma réplica em Espanha?

Uma réplica em Espanha?

O resultado das eleições gerais que se disputam, domingo, em Espanha, é imprevisível. Calcula-se que nenhum partido conquiste a maioria absoluta e que, por isso, se imponham acordos pós-eleitorais. Portugal pode servir de modelo inspirador... Todavia, há três variáveis que podem baralhar tudo: uma falta de precisão das sondagens, uma drástica redução do número de indecisos e a agressão de que foi vítima Mariano Rajoy anteontem na sua cidade natal, Pontevedra.

É um ambiente político empolgante este que se vive no país vizinho. Depois de amanhã, quatro candidatos podem ser presidentes de um Governo que não disporá de qualquer almofada de conforto estendida apenas por um partido. Todos estão conscientes disso e o maior problema que enfrentam, para além da dificuldade em captar novos votos, é não encontrarem nos adversários pontos de convergência. Cada um a seu modo tem assinalado a sua distância em relação aos outros líderes partidários. É uma estratégia política de apelo ao voto útil, mas cada gesto em tempo de campanha não poderá ser completamente apagado depois do escrutínio eleitoral.

Mariano Rajoy já anunciou que apenas formará Governo se o PP for o partido mais votado. Se tal não acontecer, abandona a Moncloa e o mais certo é ser também empurrado para fora da liderança dos populares (há já uma bem treinada Soraya Sáenz Santamaria que pode ficar no seu lugar). Nos socialistas, Pedro Sánchez, chegado há pouco mais de um ano à liderança do PSOE, luta por fazer descolar o seu partido do segundo lugar das intenções de voto, atrás dos populares. Na última edição, a revista "Tiempo de hoy" perguntou-lhe se está disposto a governar no caso de reunir menos votos do que Rajoy. A resposta parece ter desviado o ângulo da questão, mas os mais atentos sabem que Sánchez recentrou o seu discurso no que importa não perder de vista. "Quem tiver mais deputados terá a responsabilidade de formar Governo", disse. Ora, isto significa que o PSOE pode criar em Espanha uma réplica daquilo que o PS fez em Portugal, se convencer Podemos ou Ciudadanos a apoiá-lo numa solução governativa. No entanto, o jogo de alianças não é assim tão simples, porque a Direita também poderá procurar acordos de governação.

Percorrendo por estes dias a Imprensa espanhola, há muitos articulistas que apostam numa aliança entre o PP e Ciudadanos. Albert Rivera tem repetido que não apoiará Rajoy, nem Sánchez. Quer ser ele a liderar o Governo. Há quem arrisque uma terceira via, retirando do palco os líderes dos dois partidos da Direita, colocando aí a promissora Soraya Sáenz Santamaria. Uma hipótese bem aceite por muitos populares, mas sem ter (ainda) aprovação de Rivera.

No que diz respeito a cenários, há ainda mais duas hipóteses. Muito improváveis. Uma aliança PP/PSOE ou uma outra Ciudadanos/Podemos. No primeiro caso, seria muito complicado colocar Mariano Rajoy ao lado de um Pedro Sánchez que o acusou de não ser uma pessoa "decente" e não seria tarefa fácil esquecer as colossais incriminações que um tem disparado em direção ao outro. No segundo caso, como conviveria o catalão Albert Rivera, opositor da via proposta pelos partidos independentistas da Catalunha, com um Pablo Iglesias que defende um referendo vinculativo para a região e como é que dois partidos com uma proposta de Governo tão diferente encontrarão uma plataforma de entendimento?

Claro que, no domingo, as urnas podem surpreender, estendendo a um dos partidos uma inesperada maioria absoluta. Ninguém acredita nessa possibilidade. Todavia, o incidente de Pontevedra pode ter um efeito catalisador para o PP que ontem viu as primeiras páginas dos principais jornais preenchidas com um Mariano Rajoy a proclamar os espanhóis como um povo "moderado, de gente tranquila e séria". Nenhuma estratégia de marketing conseguiria melhor efeito junto do eleitorado. Porém, os espanhóis podem não estar disponíveis para estados de alma e o voto poderá fragmentar-se. Aí, ganhará o mais hábil nas negociações.

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO