Opinião

Uma TAP que voa rasteiro 

Uma TAP que voa rasteiro 

Gosto dos ambientes dos aeroportos. Sinto-me atraída por aquilo a que o antropólogo Marc Augé chama não-lugares, espaços sem uma identidade definida por onde passam múltiplas e variadas gentes. Apressadas, mais vagarosas, de traços identitários bem definidos ou sem pertença visível. Aprecio aquilo que as pessoas fazem nestes lugares, mas abomino aquilo que estes espaços fazem a quem por lá passa.

Uma recente experiência marcou-me pelos contrastes. Ao optar pelo aeroporto Sá Carneiro para viajar para Munique, o caos evidencia-se logo no controlo de segurança onde se engrossam filas de distintos viajantes. A chamada faz-se depois da hora prevista e, já dentro do avião da TAP, os passageiros veem-se obrigados a uma espera que começa a fazer periclitar ligações para outros destinos. A aterragem em Lisboa faz-se com muito atraso. Ali chegados, sente-se um desordenado frenesim, que se extingue quando se entra no avião da Lufthansa rumo ao aeroporto de Munique-Franz Josef Strauss. A chegada faz-se já à noite. Dada a quietude dos corredores, sente-se a estranha sensação de que não há ali praticamente ninguém. Pura ilusão. Por ali, circula muita gente. A qualquer hora. Não se nota, dado o planeamento milimétrico de tudo. Na manhã do dia seguinte, haveria de lá voltar para alugar um carro. Repete-se o mesmo ambiente calmo que se traduz numa aprazível hospitalidade para quem chega. Passados uns dias, na viagem do regresso, volto a ficar impressionada com a organização dos serviços e dos espaços. Os parques de estacionamento estão apinhados de carros, mas a circulação faz-se com facilidade. O aeroporto é gigante, um dos mais movimentados da Europa, mas não há agitação em lado nenhum. Tudo flui com normalidade. Por isso, o choque na aterragem no Aeroporto Humberto Delgado é maior, dada a confusão que se multiplica por todos os cantos.

O "Jornal de Notícias" destacava ontem, na primeira página, as queixas dos passageiros: 38 por dia em 2018. Este número corresponde a um acréscimo de 27% em relação ao ano anterior. Cancelamentos, atrasos nos voos e perdas de ligação são os principais motivos das reclamações. Neste contexto, a TAP é a empresa que mais descontentamento gera. E isso custa muito a perceber. Há semanas, a notícia de avultados prémios pagos a alguns dos seus funcionários provocou um enorme desconforto na opinião pública. A reação verbalizada pelo ministro Pedro Nuno Santos, que exerce a tutela de uma empresa que é meia pública, foi mais do que oportuna, mas importa que tenha repercussões práticas e que responsabilize os muito bem pagos gestores da TAP e, já agora, também os da ANA.

Um aeroporto é o primeiro lugar que qualquer viajante conhece quando chega a determinado país e a companhia de aviação nacional assume-se como uma espécie de anfitrião. No caso de Portugal, nada parece funcionar bem. Os aeroportos são disfuncionais e a TAP parece não respeitar quem escolhe os seus serviços. É, pois, urgente inverter este vertiginoso caminho que tanto prejuízo causa à (boa) imagem que o nosso país tem projetado no exterior.

A semana passada fiz a ponte aérea Porto-Lisboa. O voo da hora do almoço chegou com uma hora de atraso e o mesmo aconteceu com o voo de regresso. Na próxima viagem para Lisboa, opto pelo Alfa, o qual não estando isento de problemas é, apesar de tudo, mais confiável. Isso mesmo, confiabilidade, a característica que se exige de um meio de transporte.

Professora Associada com Agregação da U.Minho