Opinião

Vamos prevenir a doença?

Vamos prevenir a doença?

As políticas de saúde não têm adotado a prevenção como linha estratégica. Os utentes percebem isso cada vez que se relacionam com hospitais ou centros de saúde. Olhando o assunto através dos média, constata-se que esta questão é atirada para uma volumosa espiral do silêncio. A prevenção não existe. Em ação e no discurso. E isso tem custos. Colossais.

Comecemos com um exemplo. Todos sabemos que as doenças oncológicas, para além do imenso drama pessoal e familiar, têm elevados custos para o Serviço Nacional de Saúde. Por isso, os rastreios são fulcrais para descobrir a doença na sua fase inicial. Ora, mesmo nos principais centros urbanos, é muito difícil marcar, por exemplo, uma consulta com um gastroenterologista ou uma endoscopia num razoável intervalo de tempo. Mesmo que o utente sinta dores, a resposta do SNS tarda e, quando chega, muitas vezes já há metástases do tumor noutros órgãos do corpo. Aí a intervenção cirúrgica complexifica-se e os tratamentos de radioterapia e quimioterapia serão forçosamente prolongados. Mais sofrimento para o doente e mais despesa para os serviços públicos. Não será, pois, difícil concluir que o mais avisado seria reforçar a atuação a montante dos problemas...

Seguindo o que se passa no campo da saúde através do discurso noticioso dos jornais generalistas portugueses desde 2010 até hoje, apercebo-me que a prevenção é um tema muito periférico. Porque os jornalistas se desinteressam deste tipo de tematização, poder-se-á argumentar. Essa será apenas uma parte da realidade. A outra, a de maior dimensão, relaciona-se com o facto de não haver aí uma política articulada e consistente. Os principais atores da saúde não anunciam iniciativas, não desenvolvem programas de ação, não apresentam resultados... É óbvio que há exceções. Que, por norma, são pontuais, pouco extensivas e sem grande impacto.

Ontem, um grupo de investigadores do ISCTE apresentou um livro intitulado "Novas questões de saúde, novas questões sociais". Nas notícias que faziam a antecipação da obra, sublinhava-se a importância de ultrapassar uma linha de políticas públicas que, nos últimos tempos, valorizou as métricas, os indicadores e os protocolos. A prioridade com a vertente quantitativa da saúde lá foi obrigando os atores da saúde a correr atrás dos números, deixando o doente à deriva em unidades de saúde ou abandonado em corredores de hospitais. E o resultado de tudo isto é uma profunda revolta dos utentes, um grande descontentamento dos médicos e dos enfermeiros e um sentimento de ineficiência nos gestores de saúde pública. O tempo deverá ser, pois, de viragem.

Escassos dias depois da tomada de posse deste Governo, o ministro da Saúde anunciava, no Congresso Nacional de Medicina, que decorreu no Porto, que a prioridade da sua política seria a defesa do SNS e a promoção da saúde, encontrando nas pessoas o seu principal eixo de ação. Não será essa tarefa fácil. Porque obriga a uma mudança de paradigma. Que é, no entanto, imprescindível para a nossa sobrevivência como utentes dos serviços públicos de saúde.

Neste primeiro ano, o ministério de Adalberto Campos Fernandes tem muitas frentes de ataque. Uma delas será sempre a da prevenção. Portugal precisa de uma política sólida e abrangente a esse nível. Que atenda a diferentes geografias, que integre diferentes atores, que ataque as doenças mais graves que podem ser tratadas precocemente. Não é tarefa simples centrar parte dos esforços aqui, porque essas opções não se traduzem em resultados imediatos. E os políticos nem sempre gostam disso. Porque necessitam de mostrar trabalho. Rapidamente. No entanto, uma aposta na prevenção das doenças será sempre reconhecida a médio e longo prazo.

Não podemos ser um país que morre abandonado por uma política demasiado focada nos números. Vamos lá ver se é possível mudar um padrão que nos afundou numa descrença pelo SNS. Pela minha parte, continuarei atenta ao discurso noticioso que os média vão produzindo sobre o atual estado da nossa saúde. Porque a agenda mediática é sempre um excelente reflexo das prioridades que os atores sociais determinam para o seu campo de ação.