Opinião

Marcelo, um mandato inimaginável

Marcelo, um mandato inimaginável

Não foi assim que Marcelo Rebelo de Sousa idealizou o seu segundo mandato. O presidente dos afetos está impedido de ser aquilo que gosta: próximo das pessoas. Quando terça-feira tomar posse, sabe que a nação está prostrada. Como há cinco anos, mas, desta vez, há medo do futuro. Já se percebeu que a vida pode mudar repentinamente e afundar-nos num buraco durante muito tempo.

Em 2016, o homem que desceu sozinho a pé a Rua de S. Bernardo rumo à Assembleia da República para tomar posse como chefe de Estado vinha cheio de esperança. Nessa altura, prometeu recriar convergências e cicatrizar feridas. Citando longamente Miguel Torga, preocupou-se em puxar pela autoestima dos portugueses, assegurando que "valemos muito mais do que pensamos ou dizemos". Estes eram tempos em que precisávamos de sair definitivamente de uma crise financeira. Hoje vivemos asfixiados por várias crises: sanitária, económica, social... Marcelo sabe que o país não se sara somente com afetos e com pontes políticas. Já não dependemos apenas de nós próprios. Este é um tempo em que problemas globais demandam soluções globais.

Na terça-feira, a cerimónia do Parlamento será minimalista. Já não haverá festa na rua, nem tão- -pouco se estenderá a tomada de posse a outras partes do país, como aconteceu em 2016, no Porto. Marcelo vai ter de recriar novas formas de estar com os portugueses, abrindo novos canais de comunicação para além dos média tradicionais que tão bem domina. Neste mandato, o presidente terá de entrar de forma sistemática no mundo digital.

Em termos de xadrez político, nada está facilitado. As sondagens apontam para geometrias político-partidárias longe de maiorias alargadas, que para alguns seriam a chave da estabilidade. Em S. Bento, o inquilino de Belém contará decerto com boa vizinhança, sendo essa relação sempre estratégica para ambas as partes. O eventual reaparecimento de Pedro Passos Coelho depois das autárquicas não é uma boa notícia para este presidente, mas a Esquerda que agora se mostra mais musculada também não augura tempos fáceis. Há, entretanto, uma frente externa para cuidar, sobretudo num contexto pós-pandémico que terá ondas de choque de duração indeterminada.

Na próxima semana, inauguramos um novo ciclo político. Marcelo Rebelo de Sousa não será seguramente o mesmo presidente. Porque o país mudou radicalmente e os partidos também. No entanto, como há cinco anos, precisamos muito de políticos que nos deem futuro.

Professora associada com agregação da Universidade do Minho

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