Opinião

O (debate sobre) futebol nunca sairá da TV

O (debate sobre) futebol nunca sairá da TV

Por estes dias, criou-se um frenesim à volta dos formatos televisivos de debate futebolístico, na sequência do anúncio da SIC em descontinuar programas com representantes do Benfica, do Sporting e do F. C. Porto.

Não é uma revolução. Apenas uma decisão necessária devido ao clima de guerrilha que adensavam. Com isto, a SIC acabou por inesperadamente despejar um balde de água fria sobre a atenção dada à transferência de Cristina Ferreira para a TVI.

Os programas de debate de futebol somam muitos anos. No mesmo mês em que inaugurou o canal, a SIC criava um formato intitulado "Os donos da bola". Nele, pretendia-se fazer entrar os presidentes dos três maiores clubes. Eles acederam ao convite, mas apenas compareceram à primeira emissão, a 18 de outubro de 1992. Na semana seguinte, deixaram o diretor-geral da estação com a bola na mão. Para contornar o problema, encheu-se o alinhamento com noticiário sobre futebol e, como isso resultou, insistiu-se nesse improviso durante bastante tempo. A 7 de fevereiro de 1997, "Os donos da Bola" transformam-se num formato de debate, fazendo entrar semanalmente em estúdio um painel fixo de comentadores ligados ao Benfica, ao Sporting e ao F. C. Porto. O operador público inaugurara já esse tipo de programas em 1995 na RTP2 com "Jogo falado", uma novidade na TV que a rádio ensaiava há algum tempo. A TVI haveria também de replicar a ideia. Não se pense, no entanto, que este formato vingou imune a polémica. Na SIC, as noites de sexta-feira, altura em que o programa ia para o ar, faziam-se com discussões incontroladas em estúdio e com frequentes desacatos à porta da estação, protagonizados por adeptos em fúria.

Com o surgimento dos canais de informação, estes programas transferem-se para o cabo. Aí constituem-se como uma importante âncora de audiências. Nos canais privados, certos formatos foram criando tribunas de uma musculada discussão que incitava muitas vezes à violência entre adeptos, ao conflito entre dirigentes e ao ódio entre clubes.

A decisão de fixar limites surgiu agora. Não é inédita. Segundo os responsáveis da SIC, o propósito é acabar com produtos tóxicos. Estarão, decerto, a falar de pessoas. Não de programas. Em finais de agosto, os telespectadores poderão continuar a contar com formatos que debatam o futebol. Ninguém ousará retirá-los da grelha. Pela importância e pela rentabilidade.

* Professora Associada com Agregação da UMinho

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