Opinião

O problema da abstenção

O problema da abstenção

Hoje e amanhã, a Comissão Nacional de Eleições e as estruturas locais responsáveis pelas mesas de voto terão uma tarefa importantíssima: organizar irrepreensivelmente o ato eleitoral de domingo e comunicar o mais possível à população as condições de segurança garantidas.

Face aos assustadores números de mortes e à ameaça da variante britânica, muitos de nós podem decidir não votar. E isso pesará muito nos resultados eleitorais.

Termina hoje uma campanha eleitoral profundamente atípica. Os candidatos movimentaram-se com grande dificuldade por um país em confinamento e muito descentrado deste escrutínio. É habitual esse desinteresse em caso de reeleição de um presidente e quando as intenções de voto indicam um vencedor antecipado. Todavia, desta vez o país está demasiado preocupado com esta pandemia.

Nunca vivemos um medo coletivo assim. E isso faz-nos olhar com desconfiança para candidatos que têm insistido em andar pelo terreno, potenciando situações de risco. Ouvimos reiteradamente dizer que estavam asseguradas as condições de segurança, mas todos sabemos que este vírus vai progredindo sempre que há proximidade entre pessoas... E nem sequer vamos pensar no indescritível jantar da candidatura de André Ventura que juntou 170 pessoas num restaurante de Braga... Que ninguém venha falar de liberdades ou de exceções enquadradas em iniciativas políticas, porque do que aqui se trata é de responsabilidade individual.

Sem que ninguém se tivesse empenhado atempadamente no adiamento destas eleições, domingo será um dia em que a democracia poderá periclitar. Se a abstenção se aproximar dos 70 por cento, teremos um ato eleitoral de legitimidade política questionável e com resultados algo baralhados. Por isso, urge apelar ao voto que desta vez implica outras responsabilidades. É imperioso criar condições para que a votação não acumule extensas filas, nem tão pouco se processe em espaços pouco arejados. Nessa logística, há que ponderar a meteorologia. Ninguém vai esperar horas para votar sob chuva intensa... As imagens do passado domingo não corresponderam a uma festa da democracia. Espelharam um país descuidado e incauto perante os atuais números de mortos e infetados.

Logo pela manhã de domingo, as televisões, os sites noticiosos e as redes sociais vão começar a divulgar imagens de mesas de voto de diversos pontos do país. Que isso sejam janelas que nos motivem a ir votar. Porque estará em causa o futuro da democracia, ou seja, o nosso futuro neste tempo tão sombrio.

Professora Associada com Agregação da Universidade do Minho

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