Opinião

O que se passará no país político?

O que se passará no país político?

Na última edição da Festa do Livro de Belém, ao entrevistar, juntamente com a jornalista Leonete Botelho, o presidente da República, retive uma afirmação particular. Disse-nos Marcelo Rebelo de Sousa que este cargo lhe permite agora perceber que mesmo o analista mais bem informado desconhece aspetos fundamentais que explicam certas decisões.

O nosso interlocutor sabia do que estava a falar, pois ele próprio foi, durante largos anos, um destacado comentador e, neste momento, conhece por dentro os centros do poder. Tenho pensado muito nisso nestes dias tão profícuos em análises que procuram antecipar o desenho da próxima legislatura.

Esta semana, os média noticiosos têm multiplicado peças sobre o resultado das eleições legislativas, as reuniões do PS com os diferentes partidos, a sucessão dos líderes partidários mais à Direita... Relata-se e analisa-se aquilo que é permitido ver.

De livro de apontamentos na mão, António Costa vai percorrendo as sedes partidárias daqueles que eventualmente podem ser parceiros do PS. Consigo leva Ana Catarina Mendes, Carlos César e Duarte Cordeiro. Só eles sabem o teor das conversas urdidas em espaços de reunião sobre os quais se criam diferentes expectativas. As declarações que vão sendo feitas aos jornalistas apenas traduzem uma parte daquilo que se passa e daquilo que cada um acha estratégico colocar no espaço público mediático. Há um certo poder em cena que os diferentes partidos vão encenando em prol dos seus interesses e isso pode baralhar (muito) quem analisa a atualidade política.

Para acentuar a entropia do momento, acrescentem-se a arbitrariedade do signo linguístico e o consequente grau de construção dos discursos acerca daquilo que acontece. E aí poderemos tropeçar num real que é apenas um pálido reflexo daquilo que está a acontecer. E que importaria conhecer para perceber aquilo que está mesmo diante de nós, sem que disso se consiga fazer uma leitura assertiva.

Com o PR a apressar as negociações, António Costa e os seus putativos parceiros não têm muito tempo pela frente. Ainda bem. Porque na cabeça de cada um destes negociadores estará já um plano bem delineado. Agora, apenas é necessário as partes coincidirem nas vontades. O passado recente diz-nos que António Costa é um exímio jogador de peças aparentemente irreconciliáveis. Mas desta vez o jogo é mais exigente. O espetro potencial de uma nova "geringonça" alargou e o formato ortodoxo de há quatro anos, com papel assinado, pode transformar-se num híbrido de compromissos, porventura menos estável.