Opinião

O regresso (lento) à vida de todos os dias

O regresso (lento) à vida de todos os dias

Na segunda-feira, o meu filho regressou à escola e eu, por arrastamento, saio mais vezes de casa para o transportar.

Sentimos alguma normalidade, mas sentimos, acima de tudo, que a vida se faz mais com pessoas. Porque nenhuma tecnologia substitui a interação cara a cara, mesmo quando não fazemos um balanço negativo do isolamento.

Os meses de confinamento em 2020 e em 2021 não custaram muito a passar. Porque o quotidiano se preencheu com atividades algo diversificadas. As plataformas, de certa forma, salvaram-nos, na medida em que foram trazendo para dentro de casa aulas, reuniões, conversas com amigos, partilhas de filmes... no meu caso, até diretos televisivos. E isso quebrava alguma solidão e travava um certo medo que, em determinados momentos, nos poderiam assaltar. Claro que houve dificuldades para conjugar no espaço privado tarefas do domínio público, mas também isso foi sendo acomodado com naturalidade.

Pela nossa parte, cumprimos à risca os períodos de confinamento, ficando em casa e isso não foi aflitivo, porque havia sempre janelas rasgadas para vários lados. Todavia, sabemos que esse tempo foi muito angustiante para os avós que subitamente foram retirados de um quotidiano que se preenchia com a alegria dos netos. Revelou-se igualmente penoso para certas pessoas que, aos poucos, foram asfixiadas por estados depressivos. A vida que hoje procuramos retomar não é aquela que abandonámos há um ano. Nós não somos os mesmos e aqueles que nos rodeiam também não.

Há teses que defendem que esta década ainda poderá ser uma réplica dos anos 20 do século XX. O médico com formação em sociologia Nicholas Christakis, que tem um livro, que chegará às livrarias portuguesas este mês, intitulado "A flexa de Apolo: o impacto profundo e duradouro da covid", defende que as mudanças não serão repentinas. Ao contrário dos anos loucos do século passado, os mercados poderão não reanimar facilmente, a produtividade poderá não disparar tão depressa e o nosso ânimo poderá levar tempo a renascer... Há uma memória inscrita no nosso corpo, feita de distanciamentos, medos, incertezas, isolamento... Seguindo Didier Anzieu (que intitula sugestivamente um dos seus escritos como "Le Moi-peau"), a pele seria não apenas o que delimita o nosso corpo, mas também aquilo que nele fazemos penetrar, funcionando como uma superfície da comunicação sensorial a partir da qual (re)organizamos a nossa identidade. Em tempos de pandemia, houve alterações profundas a vários níveis. Resta saber quanto tempo levará a apagar em nós toda esta tragédia.

*Prof. Associada com Agregação da UMinho

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