Opinião

O turismo a partir de quem nele trabalha

O turismo a partir de quem nele trabalha

O turismo faz-se de múltiplas variáveis: da atratividade dos lugares, da segurança que aí é garantida, das infraestruturas disponíveis, da excelência do produto, da qualidade dos serviços prestados... Ora, é a esse nível que hoje, em Portugal, se registam falhas que deveriam ser depressa colmatadas. Não basta ter hotéis magníficos e excelentes restaurantes, se não houver aí colaboradores à altura.

A sazonalidade do turismo sempre dificultou a perenidade dos postos de trabalho. Ao longo do ano, há picos concentrados em períodos curtos a necessitarem de respostas robustas, mas numa parte substancial do ano tudo se faz com equipas pequenas. Por isso, chegado o verão, hotelaria e restauração manifestam as habituais queixas de mão de obra, também sentidas, devemos reconhecer, por uma certa falta de investimento nos restantes meses.

No entanto, também é verdade que o longo período pandémico que atravessámos exacerbou o problema. Muitos desistiram desta atividade por a considerar demasiado volátil, outros habituaram-se a apoios suplementares e resistem a regressar. Assim, nesta altura, muitos empresários recorrem a trabalhadores estrangeiros que, para além de não dominarem nem o português, nem o inglês, que é uma espécie de via verde para a comunicação, pouco sabem do serviço que prestam. Ainda há pouco tempo, num prestigiado hotel de cinco estrelas do Norte do país, quis saber mais do vinho que era oferecido, mas quem servia as refeições nada sabia da região da garrafa que tinha em mãos. A situação repetir-se-á por estes dias a sul, onde se recruta muita mão de obra estrangeira, sem qualquer formação em hotelaria ou restauração e com pouco domínio da comunicação com os clientes.

Portugal precisa, pois, de pensar a fundo o turismo, sobretudo quando o país encontra neste setor um vetor estruturante da economia nacional. Ainda ontem este jornal noticiava que há 20 novos hotéis a nascer na região do Grande Porto. Excelente! Todavia, precisamos de formar mais quem aí trabalha e necessitamos de dar mais apoio aos vencimentos dessas pessoas, a fim de tornar possível a sua permanência nesses lugares.

É certo que a sazonalidade imporá sempre constrangimentos, mas, mesmo assim, poder-se-ia pensar em protocolos com as escolas de turismo para trazer mais os estudantes para experiências de trabalho num domínio que conhecem bem. Também se poderia intensificar a formação em períodos de maior afluência de turistas, incentivando os trabalhadores a frequentar sessões que os ajudassem a desempenhar melhor as suas funções. Porque é sempre a partir do serviço que se constrói grande parte da (in)satisfação dos clientes.

*Prof. associada com Agregação da UMinho

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