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Opinião

Olhamos para ecrãs. Não para pessoas

Olhamos para ecrãs. Não para pessoas

Asfixiados por periféricos móveis (smartphones, tablets...), ajustamos competências e mudamos estilos de vida. Já pouco nos interessam as pessoas e as relações face a face. Não temos tempo para isso. Porque a tecnologia consome-nos a vida em diversos campos sociais e, sobretudo, na nossa esfera pessoal.

A minha geração vive hoje numa vertigem face às atuais exigências tecnológicas. Crescemos sem telemóveis, desenvolvemo-nos colados a livros impressos e criámos uma certa dependência das relações interpessoais. Recordamos esse quotidiano que nos formou como estando "in illo tempore", despojados de qualquer referencialidade. Hoje, tudo mudou. E nós fomo-nos adaptando, arrastando as tecnologias para um quotidiano que vamos atropelando com tantas tarefas para cumprir. Vejamos um exemplo no campo da saúde.

Nos consultórios, muitos são os médicos que não olham para os pacientes. Olham para o computador. Do outro lado da mesa, vão debitando perguntas sobre nós e tomando notas em formato digital. Há uns anos, tomei mais consciência disso num congresso de oncologia em que um médico sénior não se cansou de sublinhar os riscos que essas novas exigências acarretam. Por coincidência, adoeci no dia seguinte, recorrendo a uma clínica privada para uma medicação que neutralizasse o estado febril. E lá encontrei um médico com o habitual questionário. A dado momento, repetiu uma pergunta e eu deixei escapar um sorriso mais expressivo. "Porque se ri?", perguntou ele, observando-me talvez pela primeira vez com mais atenção. "Porque já respondi a essa pergunta e reparo que ainda não teve tempo de olhar para mim desde que aqui entrei", expliquei com a delicadeza possível. O meu interlocutor fitou-me uns breves segundos em silêncio. Acabou os seus apontamentos e disse-me para me sentar na marquesa para me auscultar. De repente, o som estridente do seu telemóvel acomodado no bolso da bata toma conta do espaço. Afastando-se de mim, lá atende a chamada e, durante algum tempo, combina o jantar para a noite daquele sábado. Ainda pensei fazer outro comentário, mas contive-me a tempo. Estamos dominados por um aparato tecnológico que nos esmaga. Profissional e pessoalmente.

Esta semana, numa entrevista a um semanário, a presidente da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar lembrava que "para as relações não há resposta no Google". É preciso tempo para ouvir os outros. Mas é isso que a tecnologia teima em nos subtrair: tempo, sobretudo tempo de qualidade, justamente aquele que confere perspetiva às nossas vidas.

Prof. Associada com Agregação da U. Minho