Opinião

Os dias bons em tempo de confinamento

Os dias bons em tempo de confinamento

Recolhi-me em casa a 14 de março, tendo consciência de que isso seria por tempo indeterminado e que o confinamento teria de ser escrupulosamente cumprido.

O meu trabalho centrado na noticiabilidade da covid-19 adensava a preocupação, mas reconheço que passei dias bons. Porque as pessoas de quem mais gostamos e que gostam de nós salvam-nos sempre, sobretudo na adversidade.

Estar 70 dias seguidos em casa é um desafio colossal. Subitamente o espaço doméstico é invadido por múltiplos ambientes que se desenham a partir de sucessivas plataformas digitais. No mesmo lugar, num escritório onde sempre imperou um deleitoso silêncio, eis a sala de aula da universidade, o gabinete para discutir trabalhos com alunos, o espaço para reuniões diversas, uma extensão do estúdio da RTP, um anfiteatro de conferências...

Mesmo ao meu lado, numa outra secretária, permanece o meu filho. Virado para outro computador, vai seguindo as videoconferências do 2.o ano e, depois dos trabalhos de casa, liga-se, através da mesma plataforma de ensino/aprendizagem, a colegas para conversar ou para partilhar ecrãs para verem em conjunto vídeos escolhidos à vez pelos amigos que se vão adicionando em janelas sucessivas.

O tempo ainda tem de esticar para preparar as refeições, para arrumar a casa e tratar da roupa... Ao final da tarde, quando se fecham os compromissos profissionais e os deveres escolares, o espaço abre-se mais à família e aos amigos. Que telefonam, muitas vezes por videochamadas, para saber como estamos. E é esse cuidado de pessoas que procuram o melhor de nós para trazer o melhor de si que vou guardar para sempre destes tempos de severo confinamento. E há tantos episódios para reter.

Lembrarei sempre o vídeo que chegou manhã cedo via WhatsApp com os parabéns cantados pelo pequeno Francisco ou o cartaz que a Inês desenhou e veio desenrolar à porta de nossa casa no dia dos anos do meu filho. Também recordarei aqueles que se voluntariaram para ir, por mim, às compras.

E alguns outros gestos. E palavras. Como as frases que os mais pequenos repetem sempre que falam através da plataforma da escola: "quando estivermos juntos, haveremos de fazer". Aí cabe um universo de possibilidades. Eles sabem o que mais importa: estarmos juntos. Enquanto esse tempo não chega, o melhor é procurar transformar a adversidade numa oportunidade para outros estilos de vida. Na verdade, este tempo pandémico deu-nos muitas lições.

*Prof. associada com agregação da UMinho

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