Opinião

Os idosos contam. Muito

Os idosos contam. Muito

Portugal está mais envelhecido. Hoje, por cada 100 jovens, há 182 idosos. E isso pesa enormemente num tecido social sem estruturas de apoio aos mais debilitados e sem políticas públicas que promovam um envelhecimento mais ativo. A noticiabilidade em torno dos resultados dos Censos 2021 dá outra visibilidade a um problema há muito detetado. A partir de agora, o tempo tem de ser de ação.

Uma volta pelo chamado Portugal profundo mostra-nos como vivem (mal) os mais velhos no interior do país. Os filhos há muito que abandonaram a terra, indo em busca de outras condições em cidades com alguma centralidade. O regresso às origens faz-se de tempos a tempos e isso não supera, de todo, a solidão que ali existe. É preciso, pois, adensar as redes de apoio a esta população isolada. Que precisa de transportes mais próximos, de ajuda para comprar bens que uma agricultura de subsistência não dá, de cuidados de saúde mais acessíveis... Quando pensam nas assimetrias, os poderes central e local terão sempre de incorporar nas suas prioridades estes desequilíbrios geracionais que tanto afetam os mais idosos, a maior parte dos quais sem qualquer capacidade de fazer frente à adversidade em que se encontram.

Vivendo em centros urbanos, os mais velhos não estão imunes à solidão. Muitas vezes, ali estão eles apertados em pequenos apartamentos cujas rendas são difíceis de suportar, mesmo em casas já consumidas pelos anos. Num inverno atravessado por preços mais elevados de energia, há agora a dificuldade acrescida em manter os espaços minimamente aquecidos. Tendo em conta o número de reformas de baixo valor, não será difícil calcular o número de idosos que não têm dinheiro suficiente para viver com o mínimo de conforto. É verdade que não ouvimos os seus queixumes no espaço público mediático, porque falamos de uma população sem poder para reivindicar e sem força para criar uma agenda noticiosa, mas os apertos por que passam são cada vez maiores, exigindo, por isso, dos decisores políticos respostas sistémicas.

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Quando falamos de idosos, há sempre que ter em conta aqueles que já não estão no ativo, mas que apresentam capacidades para desenvolver outro tipo de trabalhos. E isso deveria ser (bem) aproveitado. As universidades, por exemplo, poderiam incorporar nas suas ofertas educativas cursos de curta duração especificamente dirigidos a este segmento etário. Também as empresas poderiam pensar em modos de incorporar uma força laboral que, nestes casos, se apresentaria como complementar de algumas dimensões empresariais.

Ser um país de velhos nunca poderá ser uma fatalidade, a menos que não tornemos os mais velhos uma prioridade da ação pública.

*Prof. associada com agregação da UMinho

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