Opinião

Pedrógão, quatro anos depois

Pedrógão, quatro anos depois

No verão quente de 2017, despertámos para os problemas da interioridade do país da pior forma. A tragédia de Pedrógão era demasiado grande e nós petrificámos diante da dor daquela gente.

Na sequência de uma mediatização intensa, o país político multiplicou-se em promessas. Quatro anos depois, a região continua prostrada. Também no esquecimento.

Por estes dias, vários jornalistas regressaram a Pedrógão para perceber como está a progredir aquele lugar e como se encontram as suas gentes. Os retratos apresentados deveriam suscitar um profundo arrebatamento da consciência nacional. Há casas por reconstruir, um julgamento ainda a decorrer para apurar responsabilidades pelas vítimas do incêndio e um memorial por fazer. Mas há mais: o ordenamento e a gestão florestais não passaram pela revolução anunciada, nem tão-pouco o concelho recebeu as empresas prometidas. Quatro anos depois, há mais medo do futuro, porque há um passado pesado na memória e um presente por cumprir.

No passado sábado, o semanário "Nascer do Sol" publicava uma reportagem sobre a vida das gentes locais. O que mais me impressionou foi o facto de haver quem não quisesse divulgar a sua identidade com medo das consequências daquilo que tinha para contar. Que era muito. Por exemplo, que se procurou trazer para ali uma empresa estrangeira que depressa foi desativada. Também empresários portugueses tiveram idêntica intenção, mas desertaram passados poucos meses. Pedrógão está hoje como sempre esteve: esquecido. Só que agora carrega o peso de um luto que estes tempos de pandemia adensaram devido ao isolamento e à suspensão das consultas presenciais.

Quem se desligou da atenção a estes territórios do esquecimento fica chocado com este estado de coisas. Em plena tragédia e com os microfones dos jornalistas em riste, escutaram-se várias promessas. O tempo estilhaçou muitas delas. Depressa ficamos a saber que a solidariedade dos portugueses traduzida em donativos em dinheiro e em bens diversos nem sempre chegou aos destinatários pretendidos. E isso não poderia ter acontecido.

Estamos ainda a tempo de mitigar alguns prejuízos. Em primeiro lugar, é preciso continuar a prevenir os incêndios para que 2017 não tenha réplicas. Depois, é imperioso regressar a estes territórios periféricos e dar-lhes alguma centralidade. Os média também necessitam de estender a sua agenda até estas margens silenciosas para iluminar o que urge ser feito. O país precisa urgentemente de políticas para este Interior devastado. Eficazes e de rápida implementação.

*Prof. associada com agregação da UMinho

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